“Como envelhecer uma frigideira”, por Alberto da Cunha Melo

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Torniamo all’antigo sarà un progresso.

Giuseppe Verdi

Não sei se contei aqui o fato que segue. Não importa. O Estatuto do Idoso permite ao velho contar mil vezes uma anedota e ainda se zangar se não escuta as caridosas risadas. Estive eu numa locadora alugando uma fita de ação (sim, uma fita, e não um DVD, porque faz muito tempo, uns três anos) e um menino de uns seis anos enchia o saco do pai para levar a droga de uma fita de Mickey, enquanto o inditoso genitor suplicava que ele levasse outra, de Pato Donald, por exemplo, porque ninguém em casa suportava mais nem o som daquela porcaria. Aquele endiabrado pirralho, seguindo talvez apenas seus sentidos, ensinou-me mais sobre resistência cultural do que o magnífico Peter Berger. Todo mundo naquela locadora dava prioridade absoluta aos lançamentos, havendo para eles filas de espera, enquanto os denominados “catálogos” ou eram alugados em virtude do preço da locação (muito mais barata) ou porque o cliente já alugara todos os lançamentos. Eu estava enquadrado nas duas categorias: em tempo de carne de boi, dava prioridade aos lançamentos; em tempo de frango congelado, alugava “catálogos”, dando preferência àqueles a que não tinha assistido.

Homem do século XIX, eu pensava que menino só sabia fazer duas coisas: raiva e cocô. Com a historinha da locadora, acrescentei mais uma: ser fiel à sua sensibilidade estética. A partir daquele episódio, mesmo no tempo de carne de boi, eu só alugava um lançamento pela qualidade do elenco e pelo diretor, normalmente. Passei a alugar uma, duas, três, ene vezes as fitas antigas de que tinha gostado. Estou certo de que algumas delas, até desaparecer da locadora, eram alugadas apenas por mim. Lembro-me das duas que foram campeãs de minhas relocações: Depois de Horas, de Martin Scorsese (o filme mais kafkiano a que já assisti) e Sob o Domínio do Medo, de Sam Peckinpah (onde aprendi que a violência não tem pátria, ela mora no homem). Como aquele garoto aporrinhava o pai e o resto da família com o seu Mickey eu vivo aporrinhando meu pessoal com fitas e DVDs repetidos à exaustão.

Certa vez, escrevi um poema de encomenda, intitulado Ponta Verde, para servir de prefácio a um romance do mesmo nome, de autoria de Alves da Mota, grande alma, grande amigo. Pedindo misericórdia aos meus milhões de leitores, cito um trecho daquele poema: A mudança,/ a mudança,/ eis o mais recente/nome da pressa e da aflição. Na época em que o compus, o tema estaria ligado ao mundo das idéias, das análises precipitadas, dos Fukuyamas da vida anunciando o fim da História, e por aí vai. Hoje, ele me faz lembrar o esforço tecnológico para atualizar os produtos industriais, acrescentando-lhes em curto lapso de tempo um novo designer para acelerar o consumo, mudando-lhes a aparência e não a essência, reduzindo-lhes a resistência e impondo, através da publicidade, a cultura do novo.

Para mim, a arte é a eterna novidade. A tecnologia industrial não faz objetos realmente novos, o que faz são repetitivas extensões dos sentidos. E quando muda, muda o invólucro, a embalagem, com monstruosas devastações no meio ambiente (a latinha de alumínio derruba montanhas). Instala-se, nesse anômico mundo burguês, uma falsa filosofia, a do lucro, do juro, do carro do ano. Sustenta-a, o envelhecimento precoce e premeditado dos produtos, a chamada obsolência planejada, o triunfo do supérfluo e do desnecessário. Lembro-me de outros tempos, da máquina de costura Singer de minha tia Albertina, funcionando plenamente, centenária, ainda na década de 70 do século passado.

A obsolência planejada, para o prof. José A. Lutzenberger, é “uma das maiores trapaças da tecnologia moderna”. Somos uma civilização trapaceada, onde as pesquisas de mercado definem, para ser atacadas, as categorias ainda imunes à mais recente trapaça. Alugar só os últimos lançamentos nas locadoras alimenta a vaidade idiota de estar atualizado, mesmo que os DVDs alugados sejam puras titicas de urubu. Essa numerosa fauna do carro do ano, se tem algum hábito de leitura, que não a revista Caras, quando lê um livro pode apostar que é um best-seller de Frederick Forsyth, J.K. Rowling, Sidney Sheldon, Stephen King ou, de quando em quando, para dar uma pitada nacionalista, o rococó de Paulo Coelho. Hoje em dia eu já não sei se as pessoas compram coisas ou são compradas por elas.

Quando menino, eu vi na fazendola de meu avô, em Lajedo-PE, um velho agricultor acender um cigarro de fumo plantado lá, enrolado em palha de milho, com um isqueiro pré-histórico: duas pedrinhas, uma dela cavada, onde colocava um capuchinho de algodão impregnado com óleo de carrapateira, e a outra servindo para lançar faíscas, com batidas na primeira. Um cordel feito com casca de árvore servia para que as pedrinhas não se dispersassem. Quando adolescente, e já fumante, surpreendia-me com a curiosidade dos primos, comendo com os olhos a minha caixinha de fósforos. Eis a era da pedra polida reinventada, em plena segunda metade do século XX, na era da matéria plástica que nos rodeia por todos os lados.

No entanto, estou no tempo da internet e não sei o que faz um ferro elétrico de engomar aquecer. Literalmente perdido entre miríades de brinquedos eletrônicos, neste setor em que os feitores da obsolência planejada pintam e bordam. Tempo em que os valores da honra, da autenticidade, da fidelidade e do sentido cósmico da vida já não estão mais no display do mundo cristão. Mundo em que os trinta dinheiros, com correção monetária de dois mil anos e juros sobre juros soterraram a última inocência e um resto de paz de espírito, que a “áurea mediocridade” aristotélica poderia nos reservar, a nós, fantasmas, do século XIX.

Mas não se enganem! A anomia só se instalou no âmbito dos valores e normas espirituais. Os sentidos serão bem servidos, sim, senhor. Os humanos estão devidamente classificados quanto ao potencial de consumo. Necessidades são criadas do dia para a noite e, para atendê-las, “novos” produtos são colocados no mercado. Milhões de consumidores, bem comportados com seus babadores, esperam sair arrotando de satisfação. Bem-vinda a bomba de neutro (ou cobalto?) que mata as pessoas e deixa as coisas em paz. Tudo tem vida. Uma pedra é uma colônia viva de átomos. E daí?

Alberto da Cunha Melo criou e editou a coluna “Marco Zero”, da Revista Continente, durante 7 anos. Do número 0, em 2000, até o ano de 2007.

Revista Continente, Coluna Marco Zero, agosto de 2005.

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