Lirismo e poesia (parte 2). “O agenciamento da violência”, por Danuza Lima

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Onde há perigo
cresce também a salvação
(Hölderlin)

Cada época e cada cultura conseguem ao longo dos anos, estabelecer ligações e elaborar, dessa forma, novas formas de criação e perpetuação da violência; estar em sociedade é exercitar o domínio sobre si mesmo. A vida na esfera pública viabiliza-se na adoção de medidas comportamentais diante da figura massiva do Outro que nos espreita, permite-nos a ação do “pensar-no-outro”[1] como uma manifestação de cunho ontológico, fundamental para a compreensão do inverso: a não-permissão da vivência do outro.

A poesia, como fruto desta vivência em sociedade, mas também, a vacina e o veneno necessários para nela permanecer, nasce tal qual os versos famosos do Drummond: “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”[2].

Pois bem, temos a poesia que açoita, fere, de verso “violento”. Uma poesia que nos convida ao reduto de nós mesmos, a fim de enxergarmos a real necessidade da abordagem do que fere para reconhecimento de nós mesmos e do Outro. Sim, há espaço entre nós, para esta poesia tantas vezes recriminada nos livros didáticos, tantas vezes esquecida, não-lida, mal interpretada, mas que nos fura os olhos e como um Tirésias, nos mostra a verdade dos mundos. Amém para isso.

Os versos do poeta de Itabira dizem muito sobre a pergunta crucial de nossa caminhada pela “via Excêntrica” da poesia. Ao nos desvendar esta verdade oculta do cosmo, nos mostra que nossa vivência se constitui pelo exercício constante desses modos de ver, mostrando e/ou ocultando nossos rostos na ação de reconhecimento de si no Outro. Sendo assim, em poesia, um dos pilares ao cumprimento da ação de alteridade da leitura é, sem dúvida, o natural “agenciamento” da violência.

Conterrâneo nosso, Alberto da Cunha Melo (1942-2007), nascente de uma geração de poetas e escritores pernambucanos de inegável sagacidade, nos traz exemplo obrigatório dessa relação filosófico-ontológica. Publicado em 2006 pela editora Girafa, “O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos[3]” revela este caráter de uma poesia que não dorme, muito menos se aprisiona. Composto alegoricamente aos versos da métrica e tradição oriental[4], O cão de olhos amarelos nos permite a sedução pelo teor encantatório e insólita disposição de imagens. Estas vão desde a mais vaga impressão sensível da vida cotidiana ao mergulho em parte do universo imagético-cultural do poeta, que transita por figuras como Marlon Brando, Franz Kafka aos anônimos transeuntes das ruas.

Em “Amantes e enxofre”:

A alegria dos amantes
é a agonia dos que sobraram,
feito restos de ondas
nos rachões dos rochedos;
e quando eles resolvem
incontidos tocar-se
no silêncio da sala,
seus suspiros abanam
as fogueiras de enxofre,
pelos cantos da casa:
a alegria dos amantes
empalidece os mortais.

A dimensão plástica dada ao poema, na construção meticulosa de uma macro imagem permite ao leitor, o afunilamento de sua visão, no ato da leitura. Forma-se um quadro nítido a partir da correlação de cada verso do poema, gerada pela metaforização dA alegria dos amantes. Esta ação revela um choque de encontro, no qual a realidade não é suficiente para abarcar sensações e vivências. Por intermédio da palavra que se faz ação, as figuras que estruturam o acontecimento ético – o Eu e o Outro – provam de forma violenta esta tensão do campo ético. É necessário crer na palavra como agente propulsor de uma “realidade paralela” e cruel. Promulgando pela palavra um coágulo responsável por empalidecer todas as alegrias.

Sabendo que “cada palavra tem um universo que está nela e o que lhe colocamos dentro[5]” o poeta reconfigura o mundo sensível ficcionalizando-o conforme a necessidade crítico-criativa. É nestes polos do real que habitam as ideias de ética e de estética necessárias para fazer com que a escrita da violência expresse “essa potência em sua liberdade, lançando mão da mesma implacabilidade e do mesmo rigor de seu desejo[6]” Esta “insuficiência intrínseca do real”, levantada por Clément Rosset em O princípio da crueldade assume sua face frente ao encontro desta “causa”; a crueldade seria a parte que faltava para tornar este real, cognoscível. Desta forma, a violência e a crueldade, enquanto sua substância, são a expressão direta do real e por consequência da “vida enquanto essência[7]”, sua aparição e permanência na obra literária é reflexo transitivo da ação ontológica gerada a partir do confronto entre Eu e Outro, anteriormente definida.

Imagem do site "Parlatório". s.a. http://parlatorio.com/lirismo-e-poesia-parte-2-o-agenciamento-da-violencia-2/

Imagem do site “Parlatório”. s.a.
http://parlatorio.com/lirismo-e-poesia-parte-2-o-agenciamento-da-violencia-2/

 


[1]LEVINAS, Emmanuel. Diálogo sobre o pensar-no-outro in: Entre nós – ensaios sobre alteridade.Petrópolis: Editora Vozes, 2ª ed, 2005, p. 268 – 275.

[2] ANDRADE, Carlos Drummond. Rosa do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

[3] MELO, Alberto da Cunha. O cão de olhos amarelos e outros poemas inéditos. São Paulo: Girafa, 2006.

[4] O próprio poeta explica ainda em seu breve prefácio que a concepção do livro, deu-se sobretudo, como estudo de uma forma básica da métrica oriental conhecida como renka. A forma já extinta da poesia japonesa, descende de outra mais antiga, a Waka. Todo o livro portanto é um livre estudo das formas primordiais da renka, no que compete ao uso paralelístico e ao uso de versos dísticos no final de uma estrofe e início de outra.

[5]NEJAR, Carlos. Cadernos de fogo – ensaios sobre poesia e ficção. São Paulo: Escrituras Editora, 2000.

[6] SCHOLLHAMMER, Karl Erik A cena do crime: violência e realismo no Brasil contemporâneo, Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1ª ed. 2013.

[7] LUKÁCS, Georg, A teoria do romance, 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2012.

Hölderlin)

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