“Canto dos Emigrantes” traduzido para cinco idiomas

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Alberto da Cunha Melo: para todos, para sempre

“Signos por toda parte e o tempo todo, mas onde a jornada inesquecível da experiência que gera significado?”. Alfredo Bosi

Minhas primeiras palavras são de profundo agradecimento às amigas Beatriz Brenner (inglês), Celina Portocarrero (francês), Katia de Abreu Chulata (Italiano) e ao amigo Ioram Melcer (hebraico e espanhol) tradutores do “Canto dos Emigrantes” : justo neste ano de 2017, quando estamos há dez anos da morte de nosso poeta Alberto da Cunha Melo e quando a grande emigração de vários povos vem surpreendendo o mundo e promovendo uma onda de comoção e intolerância, gestos grandiosos e impiedade. O poema universaliza, então, a condição humana de emigrante em uma estrutura anafórica que se inicia na sua aldeia – o nordeste brasileiro – até a inevitável emigração: “para sempre/ todos emigram”.

Alberto da Cunha Melo e tradutores: Beatriz Brenner (inglês), Celina Portocarrero (francês), Katia de Abreu Chulata (italiano) e Ioram Melcer (hebraico e espanhol).

“Canto dos Emigrantes” é realmente uma inesquecível jornada ao reino das palavras que gera significado. Isso eu pude constatar ao longo de mais de 38 anos de convivência com a poesia de Alberto da Cunha Melo; testemunhei e registrei esse poema a se multiplicar em variadas mídias. Seu alcance só é comparável a outras obras-primas do poeta a exemplo de “Relógio de Ponto”, “Um cartão de visita” e o livro “Oração pelo poema”, traduzido por Katia de Abreu Chulata para o italiano, para citar os que agora me vêm à memória.

Publicado no livro Noticiário lançado em outubro de 1979 – logo após a Lei da Anistia, de 28 de agosto – pelas Edições Pirata (editora alternativa que chegou a publicar mais de 300 livros e teve Alberto da Cunha Melo como um dos fundadores), na virada do século, ele foi selecionado, por José Nêumanne Pinto, para a antologia  Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século – São Paulo: Geração Editorial, 2001 – e faz parte da antologia bilíngue Nantes/Recife: Um olhar Transatlântico (2007), com tradução de  Everardo Norões. No ano de 2006, Alberto da Cunha Melo assinou contrato de cessão de Direitos Autorais com o grupo musical Cordel do Fogo Encantado, que incluiu esse mesmo poema em seu novo álbum, “Transfiguração”,  lançado em 08 de novembro de 2007. Mas o poeta não chegou a assistir ao show de lançamento, morreu em 13 de outubro desse mesmo ano. Com a interpretação de Lirinha e arranjos do grupo, o poema passou a fazer parte de shows, atingindo um público expressivo. O poema foi também interpretado por Geninha da Rosa Borges, grande atriz pernambucana, e musicado por Jorge Carlos e Myriam Brindeiro.

Neste ano de 2017, foi inaugurada uma estátua em homenagem ao poeta: projeto (Circuito da Poesia) e execução do arquiteto Demétrio Albuquerque, com  o “Canto dos emigrantes” na placa de inscrição.

“Canto dos Emigrantes” placa da inscrição no monumento a Alberto da Cunha Melo no Parque 13 de Maio.

Tudo somado, fui motivada a fazer esta edição especial com a tradução dos amigos que honraram meu pedido. Acredito, assim, que “Canto dos Emigrantes” atravessará muitas fronteiras linguísticas e estaremos legando uma jornada inesquecível para vários leitores.

O poeta amava a palavra e foi autodidata na língua francesa, o que lhe legou o primeiro emprego no Banco Francês e Brasileiro, através de concurso, em 1967, aos 25 anos de idade. Até a sua morte, estudou com afinco a língua inglesa, com o método próprio do grande pesquisador que era. Sei que, onde estiver, está feliz com esta especial reverência de todos os tradutores pelo seu poema.

Quanto a mim,
Gratidão, sempre.

Cláudia Cordeiro Tavares da Cunha Melo

CANTO DOS EMIGRANTES

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.

De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

ALBERTO DA CUNHA MELO

Envie sua foto junto a estátua do poeta no Parque 13 de Maio, em Recife, Pernambuco. Ficaremos felizes em editar sua foto neste site. O acesso à estátua se dá pelo portão da Rua João Lira, em frente à Biblioteca Pública Estadual onde o poeta trabalho durante muitos anos no setor de Obras Raras  Consulte o mapa do Google abaixo.

 

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1 Comentário

  1. Regina Carvalho on

    Homenagem mais que merecido, cada vez que eu passo pela frente do prédio onde vocês moravam, penso como pode um prédio que abrigou um poeta tão grande passar sem nenhuma menção, mais do que na hora, parabéns a ele, a você Claudia e a Pernambuco!

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