Alberto da Cunha Melo: Poeta Maior, por Silvério Duque.

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ONTEM, (28 de agosto de 2012) NA ACADEMIA BAIANA DE LETRAS, FOI LANÇADO O LIVRO CANTOS DE CONTAR, DO POETA ALBERTO DA CUNHA MELO, EM COMEMORAÇÃO AOS SEUS 70 ANOS. LÁ, TIVE O IMENSO PRAZER DE DIVIDIR A MESA COM A SRA. CLÁUDIA CORDEIRO (ESPOSA E RESPONSÁVEL PELA OBRA DO ALBERTO), O EDITOR WALTER RAMOS E COM O POETA E AMIGO GUSTAVO FELICÍSSIMO, UM CULTUADOR DE SEU TRABALHO, POR ASSIM DIZER. O TEXTO QUE SE SEGUE É A TRANSCRIÇÃO, NA ÍNTEGRA, DE MINHA FALA:

Que ninguém é profeta em sua terra – vá lá – isso é uma grande verdade, mas nem sempre quer dizer que tudo seja desvantagem; eu, por exemplo, nunca falei na Academia de Letras de Feira de Santana, minha terra tão amada e, às vezes, um pouco ingrata para comigo, e, de repente, vejo-me aqui, na Academia Baiana de Letras, conhecendo uma série de poetas e articuladores que tanto fizeram e fazem pela arte e pela literatura, tanto de nosso Estado quanto a de nosso País, os quais, diga-se, tenho a mais profunda admiração, aquele tipo de sentimento de amizade de que tanto filosofou Aristóteles. E é em meio a este caloroso clima muito mais de fraternidade, do que de gélido espírito academicista, que me proponho a falar da poesia de Alberto da Cunha Melo.

Foi, literalmente, pelas mãos de um amigo querido, o crítico Jessé de Almeida Primo, que os recebera do também Bruno Tolentino, grande amigo e admirador do poeta pernambucano, que li os primeiros esboços de Yacala, um de seus maiores livros e uma das mais bem sucedidas narrativas de nossa literatura, num pequeno códex encadernado e datilografado pelo próprio autor, o que, para mim, já mostrava o cuidado e o capricho que, em tempo, revelar-se-iam em sua poética.

Foi desta forma que conheci os versos de Alberto, sob as circunstâncias as quais todas as grandes poesias se nos chegam: como uma chuva repentina num domingo de pique nique. Foi assim que a minha admiração pela obra de Alberto da Cunha Melo se fez diante de meus olhos: como o grande milagre que toda poesia é, sem nunca mais me libertar daquela emoção que só quem se sabe diante de algo realmente grandioso reconhece.

Os grandes poemas, como os de Alberto da Cunha Melo, têm essa capacidade, ou seja, a de nos arrebatar para outro estado de consciência e de perplexidade.

Com a poesia de Alberto não poderia ser diferente, pois, para mim, sua obra sempre sintetizou a força e a segurança da tradição com a versatilidade e a engenhosidade empolgante das produções mais atuais… e atuantes. Ela tanto se presta à reflexão temática, bem como à multiplicidade técnica, e por isso se faz digna tanto dos grandes e antigos quanto dos novos mestres. Seja orando por seu poema ou a refletir schopenhaureanamente num antigo escritório da Mesbla, foi-me muito fácil reconhecer que um poeta tal qual Alberto da Cunha Melo não buscaria a redenção pelo humor ingênuo, muito menos pela liberdade irresponsável da total falta de regras, como se convencionou entre a maioria de nossos bardos desde 1922, e sua herança maldita. Seus poemas são como uma grande e continua elucubração sobre muitos dos temas mais caros à humanidade, e é sempre com muita humanidade que eles se apresentam ao público leitor. Mesmo salvaguardados por uma espeça camada de erudição, seus versos fluem sobre os diversos conflitos éticos, morais e psicológicos de que costumam falar, sob o escopo de uma linguagem que se dirige a todos.

Daí eu penso que uma poesia assim só pode ser uma poesia conservadora, mas – permitam-me um imediato esclarecimento – não aquele conservadorismo preso à mimese paupérrima ou à total minimização de ideias e temas outrora grandiosamente trabalhados. A poesia de Alberto da Cunha Melo é um dos exemplos mais novos e mais perfeitos de valorização daquela que é a peça mais importante de toda poesia: a Palavra.

E, antes que alguém aqui considere minha declaração uma “pérola” da obviedade, é sempre bom lembrar que, nos últimos quarenta anos da história de nossa poesia, a desvalorização de seu elemento principal foi algo sumariamente propagandeado e seguido com o mais feroz afinco, da mesma maneira que, mesmo criticando os antigos poetas, os quais viam nas artes plásticas um modelo de elaboração a ser seguido pelos donatários da literatura, cobriram-se da mesma desculpa da maioria dos supostos pintores abstratos ao se utilizarem do falacioso argumento da não necessidade da figuração para esconder sua total falta de habilidade tanto de técnica quanto de talento propriamente dito.

A palavra, na poesia de Alberto da Cunha Melo, entretanto, volta a ganhar aquela profundidade de significados que, desde Cabral e Drummond, e com a exceção de Bruno Tolentino, não se ouvia ecoar a algum tempo na maioria de nossos poetas que, com a desculpa de um sintetismo necessário ao mundo veloz e desafiador em que vivemos, precisava falar rapidamente ao tempo que imprimia em seu leitor uma gana de impressões indeléveis em sua mente tão ocupada, todavia, o resultado que se via era um emaranhado de vocábulos dispersos em versos soltos e descompassados que mais confundiam e enojavam que ensinavam ou traziam alguma impressão no mínimo agradável. Mas Alberto da Cunha Melo da vazão a essa ideia e a faz funcionar, não porque é um moderno melhor intencionado e sim porque é um técnico, ao mesmo tempo que se mostra um sensível observador do mundo e das inúmeras oposições as quais esse mundo se presta e, à sua maneira, evidentemente, um conservador. Conservadorismo que amalgama uma série de elementos primordiais que, trazida do passado, tem o papel de alicerçar novas e diversas maneiras de se compreender o mundo a se abrir novíssimo e gigante a cada época, a cada novo dia para qualquer poeta. É aquele conservadorismo que estava tanto em Pessoa quanto em Bandeira, em T.S. Eliot e Carlos Drummond, Auden e João Cabral de Melo Neto… mas jamais se encontrou em Mário ou Oswald de Andrade, muito menos nos irmãos Campos ou naqueles 26 poetas de um hoje que nunca aconteceu, como queria a Heloísa Buarque de Holanda.

E digo mais: Alberto da Cunha Melo é um poeta formal (e repito isso com o mesmo tom de quem revela uma verdade incontestável, pois foi assim mesmo que me alardeou o Bruno Tolentino, aqui mesmo, em Salvador, entre uma mariscada e uma boa conversa, há alguns anos). Mas como isso se elabora dentro de qualquer poeta é a grande questão… Infelizmente, a grande maioria dos leitores, mesmo os mais preparados, entende forma como uma elaboração simplória de versos, quando, na verdade é o resultado da elaboração interior de cada poema.

Sabendo disso, Alberto da Cunha Melo vai além do mero formalismo; ele é um criador de formas, da Retranca – por pior ou simplesmente “dissonante” que este nome me soe aos ouvidos –, para ser mais exato, e criar uma forma é muito mais que inventar uma medida; é a realização de um conteúdo apropriado ao ritmo, à rima e, sobretudo, à ideia contida nos versos. E isso se dá de uma maneira muito próxima do filosofar, até porque tanto a poesia quanto a filosofia nascem do mesmo principio: o da perplexidade. E se nenhuma filosofia que se preze afirma qualquer coisa sem verificação, confirmação ou agravamento, a poesia não faz diferente, todavia, contrariamente, não tenha um compromisso em dizer ou muito menos provar uma verdade. Embora a poesia apresente um grau de objetividade (sim, objetividade), que pode se dar ao luxo de não apresentar provas ou argumentos, quando muito um exercício de estilo, e a forma em que o poema se apresenta passa a ser o seu próprio argumento, por isso a poesia é o uso demasiado e perfeito da palavra, mas sem se voltar diretamente a um leitor específico, e, dessa maneira, falando a todos ao criar, agora sim, a subjetividade que lhe é essencial e sempre peculiar.

A poesia é elaborada para dizer algo que à própria forma se apresenta, e Alberto da Cunha Melo sabe disso, sabe que a forma é calculada para dizer algo que não se vê à primeira vista no texto, é seu caráter mimético; essa característica é intrínseca a qualquer texto que se diz poético, cada ritmo, rima e distribuição de um poema é a contrafação de algo que nele se encontra e dele se apresenta. Disso se entende que toda poesia é necessidade de transbordamento e a forma é o meio pelo qual este transbordamento escorrerá. Uma das missões que cabe ao poeta é a de não se conter; dessa maneira, não há dúvida de que o poeta é um possuidor daquela “sã loucura” comum tanto aos santos como aos educadores e que conhecemos pelo singelo nome de vocação: de fazer aquilo que deve ser feito; que se espera que seja feito, mas poucos, verdadeiramente, propõem-se a fazê-lo.

E digo mais: muito embora senhor de seus versos, Alberto nos faz relembrar que há uma lei que antecede o próprio ato de criar um poema e a relação que estes poetas têm com esta lei distingui-os muito intensamente dos meros coladores de verso. E muito me alegrou quando, da primeira leitura da poesia de Alberto, ver que este poeta também sabia a quem, e como falar, ao agradecer por seu notável engenho e sua inigualável arte:

Senhor, nesta manhã de outubro,
ainda com o jeito de quem ia
reiniciar longa viagem,
meu poema chegou ao fim.

Agora todo meu trabalho
é procurar uma palavra
que te agradeça humildemente
todas as outras que me deste.

Entretanto, nem mesmo isso,
posso sozinho conseguir:
Dá-me, Senhor, essa palavra,
antes que chegue o último verso.

Que ela se espalhe como as brisas
dentro das minas, de repente,
e una-se sólida na hora
em que apertar a tua mão.

Quero morrer, quero alcançá-la,
e já começo a persegui-la
como se fosse uma serpente
que fugisse com minha morte.

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Sentimental ou racional, erudita ou popular, formal ou aparentemente livre (porque, no fim, não há poema livre para quem se presta a fazer um bom poema) toda poesia é demonstração, mas é também uma síntese de todos os nossos conflitos, principalmente os mais silenciosos… os mais ocultos.

Para a poesia, mostrar é muito mais que argumentar: esta lógica sempre foi mais forte no mundo dos poetas, por isso que, em se tratando de poesia, o apego aos fatos reais importa menos que a qualidade de como são contados, ou melhor, poetizados.

Muito mais que a verdade, para a poesia o que mais importa é aquela subjetividade que existe em tudo que é verdadeiro em um nível mais profundo, seus valores e posições existenciais mais básicas. Não é à toa que a transmissão de um acontecimento, feito por meio de elementos poéticos, é muito mais forte e eficaz; quando não, mais verdadeiro: assim acontece à Grécia pré-socrática, descrita por Homero, ou aquele Inferno de tormentosa beleza, que atravessamos ao lado de Dante e acontecerá, também, àquele Yacala, o antológico personagem da narrativa de Alberto da Cunha Melo, a buscar, no firmamento, aquilo que não lhe é possível enxergar a um passo de seus olhos:

Levamos fogo, não esponjas
ao trono sujo de excremento
disputando o mesmo vazio
de um estrela no firmamento;

jarros negros e estrelas, tudo
é busca de conteúdo;

ou somos renúncia ou cobiça,
atravessando esses planaltos
feitos de cinza movediça;

mas todos estamos em casa
como os voos dentro das asas.

E se mostrar é mais importante que argumentar, não me estranha que um leitor, por menos conhecedor que seja da história da literatura ou dos mecanismos mais essenciais da crítica estético-literária, passe mais tempo se deslumbrando sobre os versos de um soneto de Camões do que se convencendo de que há algum conteúdo ou valor estético nos herdeiros do Concretismo, por mais que mil livros ou sabichões de cátedra digam o contrário.

Todavia, não é de se condenar o modo como o público, por mais bem intencionado que seja e tente se debruçar nos malabarismos linguísticos de muitos de nossos poetas contemporâneos, relaciona-se com as obras publicadas. Se o leitor, bem o mal intencionado, estiver a ler os versos de nosso O Boca do Inferno, por exemplo, essa relação seria bem menos problemática, pois a fruição de seu entendimento dar-se-ia, naturalmente, melhor do que diante daquelas coisas “escritas”, ou melhor, “desenhadas” por um Décio Pignatari; neste caso, o conhecimento ou uma suposta admiração profunda acerca da estética da época de nosso maior sátiro não é condição de possibilidade para a apreciação das obras, mas a fruição decorrente de uma experiência estética que envolve pura contemplação… essa, sim, é importante. Isso porque os códigos que envolvem, tanto a sua produção quanto sua avaliação, são partilhados por todos os membros de uma determinada cultura, por envolverem, advertidamente ou não, um decoro ou cânones estéticos consagrados por uma tradição e, nesse sentido, entre os nossos poetas contemporâneos Alberto da Cunha Melo é um dos que acumula a maior quantidade de pontos.

Pensando assim, poucos poetas de nossa época mereceriam ser chamados de poetas, e me parece que um número bem menor de poetas poderia se dar ao luxo de se achar, em meio a tantos engodos que a contemporaneidade nos submete, entre os poetas maiores de nossa atualidade, como Alberto da Cunha Melo. Porém, se há aqui quem discorde, pois não é de achismos que uma crítica verdadeiramente honesta e eficaz se fará, como não é julgando um poema ou seu autor pelo que estes tocam às ofensas feitas à moral, às leis ou às religiões, como, certa vez, admoestou-nos o Bruxo do Cosme Velho, esteja este sempre disposto a discutir-lhe o mérito puramente literário, o pensamento criador, a construção cénica, o desenho dos caracteres, a disposição das imagens, os jogos linguísticos e a elaboração das formas, mas, claro, em outro momento, porque este momento aqui é um momento de festa, é o momento do poeta que é, tanto a mim quanto a muitos de vocês aqui, ainda tão presente, porque são os seus setenta anos, principalmente, de poesia, e, porque, pelo menos em minhas considerações, é um “Poeta Maior”, sim, Alberto da Cunha Melo o é… com certeza.

Academia de Letras da Bahia, 28 de Agosto de 2012. Lançamento do livro “Cantos de Contar”, de Alberto da Cunha Melo.

Salvador, 28 de agosto de 2012.
Texto reproduzido a partir do blog do autor: http://poetasilverioduque.blogspot.com.br/2012/08/ontem-na-academia-baiana-de-letras.html

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