“Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo, por Martim Vasques da Cunha

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A obra de Alberto da Cunha Melo (1942-2007) é similar ao mito grego de Anteu. Filho dos deuses Gaia e Poseidon, o gigante era poderoso porque seu corpo não se descolava da terra-mãe que o criou. O mesmo ocorre com os versos do autor de ‘Yacala’, um dos maiores poemas narrativos já feitos em língua portuguesa. Há neles a busca sincera pela realidade concreta e o horror pela abstração intelectual que lhes dão uma força ímpar – e o leitor finalmente terá a chance de descobrir isto, ao ser presenteado com esta ‘Poesia completa’.

“Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo. Lançamento 2017. Editora Record.

No caso de Alberto, o solo que lhe dava a matéria poética não era somente o das suas queridas cidades de Jaboatão, Olinda e Recife, mas o do Brasil como uma nação a ser descoberta. Para ele, a poesia era o veículo perfeito para uma travessia rumo ao imprevisível, dentro de um país que ainda precisa ser decifrado. Por isso, não hesitou em ser também um experimentador radical do estilo literário, sem se esquecer da tradição que o sustentou, na conquista de formas próprias para expressar seus impasses pessoais – como recuperar a métrica do octossílabo branco, nos poemas da primeira fase, e a criação inovadora da “retranca” (onze versos distribuídos em estrofes seguidas de um quarteto, um dístico, um terceto e, finalmente, um novo dístico), durante o seu período de maturidade.

Como se a ousadia formal não bastasse, Alberto da Cunha Melo era igualmente corajoso na variedade dos temas abordados. Discorreu sobre o fazer artístico (em seu inigualável ‘Oração pelo poema’); a finitude da existência (em ‘Meditação sob os lajedos’); a paixão amorosa (no belíssimo ciclo chamado ‘Clau’, em homenagem à sua musa, a artista Cláudia Cordeiro, também organizadora deste corpus que o leitor tem em mãos); as feridas sociais de um Brasil que não sabe se explicar a si mesmo (como percebemos nas duas partes de ‘Noticiário’); e, last but not least, sobre a sua própria biografia, marcada pelo ‘conhecimento na desgraça’ que o transformou em um grande poeta.

A partir de agora, esta é a tarefa hercúlea do leitor: o reencontro com um gigante da nossa literatura que usou o solo da poesia como um ‘escudo doloroso’ – e assim transformou a queda de todos nós em uma ascensão.

Martim Vasques da Cunha 

Texto da orelha do livro “Poesia completa”, de Alberto da Cunha Melo

Lançamento da “Poesia completa”, de Alberto da Cunha Melo.. Livraria da Vila, S. Paulo, 19 de dezembro de 2017. Da esquerda para a direita: Carlos Andreazza, Cláudia Cordeiro Tavares da Cunha Melo, Isabel de Andrade Moliterno, Dionisius Amendola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha

De Martim Vasques da Cunha, leia também: “As tocaias da poesia

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