“Miguel, o gato”, de Luis Manoel Siqueira, por Alberto da Cunha Melo

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TELEX PARA LUIS MANOEL

Seu gato preto está arranhando todo mundo. Edgard Allan Poe, depois de saber da existência de seu felino, vive assombrando os editores para recolher o gato que emparedou no século passado. Seu gato é um gato solto, não emparedado pelo parnasianismo geométrico dos concretistas, nem emaranhado nas teias herméticas do surrealismo persistente. É um gato eriçado, um gato-povo, um gato velho novo eterno, um gato ovo, um gato fogo, um gato que chegou em chamas das profundezas do inferno.

Outra coisa: ser claro num tempo turvo é um esforço de cristal, e o cristal tem restas, como a vida (ou como João Cabral). Atice seu gato ágil sobre a poesia poética, sobre o sentimento sentimental, sobre o sonho sonhador, sobre os equívocos e extremos  que chegou a poesia brasileira, ora uma raiva ou uma alegria ineficazes por falta de informação, ora uma masturbação sobre o gelo verbi-voco-visual do eruditismo estéril.

Pra frente, gato magro brabo, sertanejo, pra frente poesia de couro cru, ainda com sangue não evaporado pelo sol. Gato altivo sobre os telhados senhoris de um Recife adocicado pelas pernambucanidades mais marotas. Gato Miguel, “Miguel não de sí mesmo/Miguel das sombras”, depois de despojado das esperanças litorâneas, depois de apedrejado pelas crianças miseráveis ou pela caducidade intelectual das elites literárias de Pernambuco.

Gato também amolecido da Zona da Mata, onde crianças de um ano comem bananas verdes amassadas, e um camponês cercado de milhares de hectares de cana (dos outros) pede-nos desculpas porque não tem açúcar para oferecer um café. Gato de todas as zonas massacradas e pobres, gato que comeu as impossíveis “gordas gatas do porto” e depois ficou sozinho e depois morreu e depois foi jogado no lixo e depois transformou-se em poesia para nos assombrar.

ALBERTO CUNHA MELO

29.03.82

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