“Alberto de corpo inteiro”, por Hildeberto Barbosa Filho

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A poesia brasileira contemporânea está em festa! O Nordeste está em festa! Pernambuco está em festa! Está em festa o leitor que se habituou ao desconcerto dos versos tocantes de Alberto da Cunha Melo. Sim, aquele mesmo que fez um outro poeta, Bruno Tolentino, sair do eixo Rio-São Paulo para visitá-lo e conhecê-lo pessoalmente, só por causa destes versos do poema “Lembranças do amigo José Vilela, do livro “Publicação do corpo”: “Viver, simplesmente viver,/meu cão faz isso muito bem”.

“Alberto da Cunha Melo: Poesia completa”, edição da Record, com organização de sua esposa, Cláudia Cordeiro Tavares da Cunha Melo, com 999 páginas, volume único, dá bem a medida do fôlego desse poeta de Jaboatão dos Guararapes (PE), que volta, agora, em nível nacional, e de corpo inteiro, ao convívio de seus leitores.

Projeto A Poesia Viva. João Pessoa, PB, 13/04/2000, da esquerda para a direita: Hildeberto Barbosa Fillho, Alberto da Cunha Melo (homenageado) e Lúcio Lins (poeta).

É, José Nêumanne Pinto, não dá para perder as esperanças de todo num país que afunda na lama da corrupção e da insensatez, porque fenômenos como esse, do perverso mercado editorial, apontam para a luz da possibilidade do poético em meio às trevas do pragmatismo de uma indústria cultural comprometida com a ignorância, o preconceito e a desinformação.

“Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo. Lançamento 2017. Editora Record.

A poesia de Alberto é daquelas que fogem ao canto de sereia das novidades passageiras e se deixa impregnar pelo ardor das coisas permanentes. Seu verso, sempre claro, reflexivo, lírico, metalinguístico, não abdica nunca do confronto com as provas vivas da realidade concreta e da travessia instigante pelas órbitas inesperadas do cotidiano, sem desviar-se, contudo, dos apelos metafísicos que a fazem, em seus múltiplos percursos expressivos, principalmente uma poesia de intensas emoções e também de lúcido pensamento.

Em lugar de retornar ao impacto de muito de seus poemas éditos, optei, nessa leitura/releitura, pela surpresa dos inéditos. E que vejo? Vejo o mesmo Alberto, tocando o miolo invisível do dia a dia, o duro movimento das experiências existenciais, a delicada e dolorosa convivência com as palavras, sem temer a banalidade dos verbos e substantivos, e com a convicção poética de que existe, sim, como suspeitava Pitágoras, uma molécula divina latejando nas vísceras de todas as coisas.

Se a poesia se corporifica no poema a partir dos imperativos de uma translógica semântica a desordenar a suposta e organizada aparência dos conceitos; se a poesia, formatada, na simetria das imagens e das metáforas, faz brotar, da gleba das palavras, uma realidade mais densa e mais profunda; e, se ela, a poesia, é aquela “instantânea metafísica”, de que fala Bachelard, essa poesia se materializa em alta tensão na recorrência temática e estilística dos versos de Alberto da Cunha Melo.

A solidão do eu lírico, que habita e povoa os sortilégios da linguagem poética, lembra, nas “Pequenas confissões”, perplexo, um “faxineiro do nada”; dá um “stop no vídeo” e vai “assistir à noite”; aprende “com os limpadores de fossa/a beber aguardente/para fazer bem” o seu “trabalho”; e sabe que “bom mesmo era ser/aquele rochedo da caatinga,/com seu interior sem soluços/e a alma feita de anos-luz”; e ousa dizer “sou tão comum,/que quando falo de mim/falo de qualquer um”; e, num lance de mágica e iluminada percepção, afirma: “só a beleza,/em súbita erupção,/me acalma”.

Observe-se bem: ”em súbita erupção”. Portanto, não se trata de qualquer beleza. Essa beleza é a beleza de seus versos. Beleza que acalma, inquieta, enriquece e transforma a vida do leitor.

Publicado no Jornal A União, Domingo, 28 de janeiro de 2018. Coluna “Letra Lúdica”.

 

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