“Poesia completa. O presente de uma vida”, por Luis Manoel Siqueira

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“Ser claro em tempos turvos é esforço de cristal, e cristal tem arestas”.
Alberto da Cunha Melo

Comunicação de Luis Manoel Siqueira, no lançamento do “Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo, Editora Record, 2017.  Recife, 6 de março de 2018. Livraria Cultura. Auditório Eva Herz.

Um cristal de diamante perfeito possui a forma de um octaedro com oito faces. É assim que ele aparece naturalmente na natureza. Uma vez facetado 58 vezes passa a ser chamado de brilhante, refletindo a luz em todas as direções. A poesia de Alberto da Cunha Melo é um diamante talhado em oito sílabas. Uma obra tanto plural como singular. Multifacetada, brilhante e rara.

A complexidade de sua literatura ainda será motivo de muitas leituras no futuro, pois nela foi cronista, jornalista, roteirista de um cinema de bairro pobre, sociólogo, filósofo, professor, estudante, pesquisador, além de um mecenas sem dinheiro ou poder, todas as vezes que abria a porta de sua casa para ouvir e promover poetas de todas as linguagens e gerações.

A literatura brasileira, sempre mal vista no passado por seu excesso de vínculos com os galicismos aristocráticos tanto coloniais como republicanos teve, na geração do pós-guerra, o surgimento de jovens escritores que abraçaram causas humanísticas ancoradas nos ideais socialistas em voga na época, atravessando tempos agitados e muito difíceis. Em Pernambuco essa realidade foi preponderante, e teve na chamada Geração 65 de escritores, um de seus melhores momentos. Alberto foi voz marcante na denúncia das chagas sociais, na hipocrisia da arrogante oligarquia canavieira e de seus bajuladores de gabinete, nas convenções sociais que ditavam normas e códigos indiferentes à dor do outro – o drama dos silenciados. Alberto foi essa voz altiva, dissonante, e a sua obra é também impregnada dos signos desse tempo.

O preço que Alberto da Cunha Melo pagou por insistir em ser literariamente íntegro, verdadeiro, persistente e disciplinado em meio à turbidez do seu tempo, extraindo a “soma dos sumos”, tanto da realidade que observava como a de seus sonhos, foi o preço de toda uma vida. Como ele mesmo me escreveu certa vez: “Ser claro em tempos turvos é esforço de cristal, e cristal tem arestas”.

No longo percurso entre o seus livros NOTICIÁRIO e YACALA, Alberto foi do Homem até o silêncio de Deus. Ora tradutor de uma epifania cotidiana, como Jacques Prevért, ora dramaticamente divino como William Blake. Em sua trajetória literária investigou tudo o que lhe cercava, esculpindo a palavra com seu cinzel de humilde silêncio.

A sua “Poesia completa” aqui honrosamente publicada pela Editora Record, possui uma força emblemática que somente um diamante ou um monólito ígneo desvelam. Pois exatamente agora, quando a nação brasileira enxerga o verdadeiro conteúdo dos sepulcros caiados que se proclamavam arautos da esperança na política, sendo levados a prisões da república, é que a poesia de Alberto reveste-se de um significado ainda maior para as novas gerações, como no repetir de sua grande amiga, a poetisa Celina de Holanda Cavalcanti: “A justiça vale a vida. A verdade vale a vida”.

Recife, 6 de março de 2017. Livraria Cultura. Auditório Eva Herz. Lançamento do “Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo.

E é preciso que aqui se registre, nessa época de novas e perversas ditaduras: a do relativismo, a do consenso imposto e a do politicamente correto, a importância da mais sagrada das instituições humanas, célula da sociedade: a família. Essa que vem sendo covarde e sistematicamente atacada de todas as formas e por todos os lados. Pois nos mais de 30 anos que convivi com o poeta, preciso testemunhar e registrar aqui o mérito inquestionável da coautoria dessa POESIA COMPLETA. Sem a sua família, Alberto não teria ido muito longe. Pois foi no refúgio de sua casa, sob o amor incondicional de Cláudia Cordeiro e seus filhos, recebendo seus amigos, que Alberto encontrou carinho, conforto, estímulo e apoio até os últimos minutos de sua vida.

A sua obra é uma bússola para os novos poetas brasileiros. Breviário de meditações. Também é ascese da honra e da dignidade. Cristal multifacetado de um diamante límpido de uma vida cujo epitáfio parece nos dizer:

“O que hoje recebes
e não podes pegar, guardar
em panos e papéis laminados,
é imperecível,
presente onipresente.
Estás com ele na chuva
e não temes que se desfaça.
Estás com ele na multidão
e não o escondes dos mutilados.
O que não existe para os homens
deles estará protegido,
o que os homens não vêem
não poderão espedaçar.
Eis o que não te denuncia
porque não tem face
nem volume para ser jogado no mar.
Eis o que é jovem a cada lembrança
porque não tem data
e série, para envelhecer.
O que hoje recebes
Não pode ser devolvido.”

(“O presente”, epígrafe do livro “Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo. Editora Record, 2017)

Comunicação de Luis Manoel Siqueira – https://www.facebook.com/luismanoelsiqueira/posts/1852261144808587 – no lançamento em Recife, 6 de março de 2018.

Assista a apresentação também em vídeo. Clique aqui!

Foto em destaque de Márcia Cordeiro.

Recife, 6 de março de 2017. Livraria Cultura. Auditório Eva Herz. Lançamento do “Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo. Da esquerda para a direita. Hildeberto Barbosa Filho, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Nelson Patriota e Luis Manoel Paes Siqueira.
Foto de Lara Siqueira.

 

 

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