Alberto da Cunha Melo: algumas páginas épicas da história da poesia, por Nelson Patriota

0

(Comunicação de Nelson Patriota, no lançamento do “Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo, Editora Record, 2017.  Recife, 6 de março de 2018. Livraria Cultura. Auditório Eva Herz)

A história da poesia tem páginas épicas: lembremos en passant duas delas. A primeira teria acontecido em Paris, nos anos 1960, quando o jovem italiano Antonio Tabucchi deparou num bouquiniste com o poema “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, numa tradução francesa. O poema causou-lhe uma impressão tão forte que lhe abriria o mundo literário lusitano, permitindo que se apropriasse de alguns temas clássicos da história literária de Portugal, como a luta civil contra o salazarismo e a heteronímia pessoana, como se pode ler nos seus livros Afirma Pereira e Os três últimos dias de Fernando Pessoa. Na entrevista que concedeu a Tiziana Colusso, publicada no número 8 (dezembro de 2012) da revista La République des Lettres, Tabucchi é bastante explícito sobre sua reação ao poema de Pessoa. Disse ele:  Se existe um poeta que escreveu um poema tão magnífico, é preciso que eu aprenda a sua língua”.

A segunda história, narra que algo semelhante ao sucedido a Tabucchi, respeitadas as devidas proporções, aconteceu com o poeta Bruno Tolentino quando deparou com a poesia de Alberto da Cunha Melo, nos primeiros anos da década de 1990, ficando de tal modo maravilhado com tudo o que leu que não teve dúvida em afirmar, numa entrevista à revista Veja, em 20 de março de 1996, que o pernambucano era “o maior poeta brasileiro desde João Cabral de Melo Neto”.

É importante, porém, que nos reportemos ao contexto da frase. Antes, o poeta carioca respondia a uma pergunta da Veja sobre a baixa qualidade (segundo Tolentino) da obra crítica dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos. A certa altura, Tolentino afirma: “Nossa crítica suicidou-se matando o diálogo, o debate e a polêmica […]. Quem já ouviu falar de Alberto da Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral [de Melo Neto]? São deles estas palavras: ‘Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem’”.

Quanto são os avatares de Bruno Tolentino hoje a aplaudir a poesia de Alberto da Cunha Melo? Impossível dizer, mesmo porque cada novo leitor que entre em contato com sua poesia repete de algum modo a experiência do espanto que acometeu o poeta paulista, há três décadas.

Nesse entretempo, a poesia de Alberto da Cunha Melo vem recolhendo ecos da frase retumbante proferida pelo poeta carioca nos anos 1990. Multiplica-se sem cessar o círculo de admiradores desse poeta país afora. Seus reflexos não se tardarão a sentir no estrangeiro, a exemplo do que sucedeu com o próprio Pessoa. A edição da poesia completa de Alberto da Cunha Melo pela editora Record, que é lançada hoje aqui, nesse tempo do saber que é a Livraria Cultura, abre um novo ciclo na recepção de sua poesia, consagrando-lhe um lugar cada vez mais relevante no nosso cânone literário.

É possível dizer, portanto, que a poesia de Alberto da Cunha Melo passa por uma transição, como costuma acontecer com toda grande poesia. A obscuridade que cerca como uma atmosfera de instabilidades caprichosas seus poemas, começa a dar lugar a uma transparência de baixa nebulosidade, através da qual já é possível perscrutá-la de perto, interrogá-la e discernir juízos estéticos encontráveis nas diferentes fases de seu trajeto.

Todavia, não se trata de uma aventura desprovida de riscos. Escolhos de variadas espécies aguardam o leitor na sua aventura albertina. Vale então atentar para a máxima “Tudo o que é belo é profundo”, como se lê no poema “Ornamento” (Record. Poesia Completa, p. 645), que vale como uma súmula de sua arte. Grande arte, a que toda boa poesia termina por confirmar. O poeta John Keats, há dois séculos, em seu dístico que diz: “A thing of beauty is a joy forever” já revelara que a busca da beleza tem compensações inestimáveis…

Não há receita eficaz para a leitura dos grandes poemas, mas algo acontece quando a sentimos como parte de nós mesmos; como uma luz-guia para a obscuridade do mundo, para a dor que transcendentaliza o ser, conforme diz a epígrafe de “Yacala”, de autoria do simbolista Cruz e Souza.

A propósito dessa que é uma obra da fase madura do poeta, poderíamos acrescentar uma terceira página épica da poesia: o vocábulo yacala, que o poeta encontrou no livro Estudos sobre a poesia popular do Brasil, de Silvio Romero, arrebatou-o de pronto, prova de que o arrebatamento – ou “deslumbramento”, como está num poema famoso de Manuel Bandeira – é um fenômeno estético mais complexo do que aparenta ser, podendo referir-se ora a toda uma obra, ora a um só poema, ou ainda resumir-se a um único vocábulo.

Conta Alberto na “Nota do Autor” a Yacala (Record. Poesia Completa, p. 357): “Apaixonei-me pela palavra YACALA, que me surgiu bela, eufônica, luminosa. A partir daí ela ganhou maiúscula inicial e com ela batizei meu personagem, tendo no espírito o Homem, em seu sentido universal”. Vale lembrar que a palavra yacala significa homem, quer em cabindo quer em quicongolês, diz a citada.

Mas voltemos ao exercício de admiração de Bruno Tolentino à poesia de Alberto da Cunha Melo. Tomo aqui a liberdade de me reportar a duas passagens de uma entrevista que fizemos com Alberto em 25 de março de 1998 para o jornal O Galo, que editávamos no Rio Grande do Norte. Adianto que, por essa época, Alberto já fazia parte do meu estreito círculo de amigos pernambucanos, cujo incentivador era o professor Pedro Vicente Costa Sobrinho, pernambucano ora residindo em Natal, e que me proporcionou a oportunidade de conhecer, entre outros, Marcus Aciolly, Jacy Bezerra Lima, César Leal, Fernando Freire, Fernando Monteiro e o casal Alberto da Cunha Melo e Cláudia Cordeiro.

Na primeira passagem da entrevista, Alberto, kafkiano confesso, conta a forma curiosa como conhecera Tolentino, pós-entrevista à Veja. Narra Alberto:

“Em 95, o endiabrado Bruno Tolentino, poeta de quem eu nunca ouvira falar, pois estava há trinta anos na Europa e tinha regressado no ano anterior, ao visitar o poeta Weydson Barros Leal, no Recife, este mostrou-lhe um velho livro meu (Poemas Anteriores), que reunia toda minha produção em octossílabos. Publiquei esse livro por insistência da pintora Claudia Cordeiro, minha mulher, e ele tinha passado praticamente despercebido no Recife (porque de lá as coisas não vão a parte alguma). Diz Bruno que leu o livro de um só fôlego, e no dia seguinte bateu lá em casa. E bateu tão forte que eu disse um palavrão e fui ver se algum PM estava arrombando a porta. Bruno quase voltava no mesmo pé, pensando que eu ia agredi-lo. O resultado é que ficamos conversando sobre poesia até três horas da manhã e de lá para cá ele vem divulgando meu trabalho e me trazendo para esse saco de gatos que é o mundo intelectual brasileiro, onde gestos como o dele, pela grandeza, generosidade e desprendimento, chegam a soar, diria Cabral, como “um sim, na sala do não”.

Na segunda passagem da entrevista que nos concedeu, Alberto tenta relativizar a contundência de que Tolentino se valeu para enfatizar a qualidade de sua poesia. Diz Alberto:

“Para começar, Bruno não disse precisamente isso, na sua entrevista à Veja. Ele diz algo como “depois de João Cabral…”. E não poderia ser diferente. Cabral não é apenas o maior poeta brasileiro deste século e um dos maiores poetas vivos do mundo. Ele é sozinho toda uma escola poética. É o único touro reprodutor da poesia brasileira de nossos dias. Ele não faz, apenas, uma grande poesia, ele faz poetas”. É sua primeira tentativa de minimizar a impactante fala de Tolentino à Veja. Mas, insistimos, o poeta carioca não deixou margem para dúvida, e se Alberto substituiu marotamente o “desde João Cabral” por um “Depois de João Cabral”, atribuamos tal artifício à tentativa de driblar a condição em que o colocou o “endiabrado” Tolentino.

É verdade que, ao final da entrevista Alberto recorre a um segundo artifício para relativizar o caso Tolentino. Diz ele: “Eu, particularmente, não me coloco nas alturas que Bruno me vem colocando. Mesmo porque as diferenças entre os verdadeiros artistas são mais de natureza do que de grandeza. João Cabral, Juan Ramón Giménez, Tagore e Rilke são poetas de natureza diferente e, porque são artistas verdadeiros, cada um deles tem seu espaço exclusivo na galeria de minhas admirações. Não estamos num concurso de Mister Universo, para saber quem é o novo Schwarzenegger”.

Tom e metáfora dão a entender que Alberto viu na declaração de Bruno Tolentino mais do que um cumprimento, o que contrasta com a reserva mais-que-cautelosa com que recebia elogios, quaisquer que fossem. Uma prova cabal desse “low profile” do autor de Meditação sob os lajedos é a luta contra o tempo, pois Alberto nunca achava que escrevera toda a poesia que trazia em si. Isso o mantinha numa sofreguidão laboral permanente. A explicação para isso é simples: se a poesia lhe vinha aos borbotões, a escrita devia seguir na mesma pegada.

Isso implica outro fenômeno albertino: metade da sua poesia enfeixada na Poesia Completa (Record, 2018) é inédita, revelando que o poeta levara às últimas consequências seu compromisso vital: escrever; quanto a sua publicação, isso poesia poderia esperar.

Manuseando sua Poesia Completa, não podemos deixar de dar mais essa razão ao poeta na sua aposta com o futuro. Sua poesia se encontra hoje mais viva do que jamais o foi em qualquer época.

Mas não percamos tempo especulando sobre esse sortilégio temporão da arte. Seria razoável afirmar que a poesia costuma entregar os louros aos seus favoritos a posteriori. A Obra completa de Alberto da Cunha Melo agora nos oferece a rara oportunidade de vê-lo por inteiro em seu elemento, e embora não fosse loquaz, menos ainda eloquente ao falar de si, Alberto pode agora responder a todas as nossas perguntas através desse meio que seu livro nos franqueia. Basta que o leiamos.

Vai aqui e agora um exercício de leitura albertino. Trata-se do poema “Sertão Central e de Crateús”, extraído do livro “O cão de olhos amarelos” (A Girafa, 2006). Antes de lê-lo, vale ressaltar que o poema contém o embrião de uma arte poética, apontando para o sentido e o fim da poesia. Eis o poema:

 

SERTÃO CENTRAL E DO CRATEÚS

 

Que a poesia seja
a arte de dar nome
a todos os bois:
aos pesados novilhos
do fazendeiro-prefeito
e às duas cabrinhas
do morador submisso
e por isso chamado
de morador perfeito;
que a poesia seja
a arte de dar fome
de justiça
a todos os homens.

 

Compartilhar.

Powered by themekiller.com