“Tradição de extremos”, por Alfredo Bosi

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O que significa esta nova experiência poética de Alberto da Cunha Melo – O cão de olhos amarelos?

“O cão de olhos amarelos”, de Alberto da Cunha Melo, 2006, primeira edição.

Começo atentando para o procedimento de composição que o poeta adotou de modo sistemático. A repetição é aqui estrutural, pois se dá não só no interior de cada estofe, mas serve de leixa-pren atando as quintilhas entre si.

O efeito é encantatório como na poesia ritual que habita as fórmulas mágicas, antiga função religiosa que ainda sobrevive. O rito renasce, de algum modo, na música e na dança que não dispensam a reiteração do som e dos gestos. A magia penetra as renkas de Alberto da Cunha Melo conferindo insólita beleza a esta sua última criação.
Mas quer-me parecer que O cão de olhos amarelos vale-se da retomada frásica e rítmica com vistas a outro efeito, a rigor oposto ao da melopéia encantatória. Trata-se de um modo de compor que tem a ver com o desígnio intelectual de chamar a atenção para o cerne semântico do poema. Um dos traços molestos da cultura pós-moderna é certa multiplicação incoercível de mensagens, beirando a vertigem e minando por dentro as forças da atenção e da memória. Um antídoto válido à dissipação do espírito do leitor é precisamente a repetição pensada de idéias e sentenças. A nova poesia de Cunha Melo traz esse estímulo à inteligência: convida o leitor a deter-se no sentido de cada frase, é um plusde energia significante que “dá a pensar”, para dizê-lo com a fórmula incisiva de Paul Ricoeur.

“O cão de olhos amarelos” de Alberto da Cunha Melo, segunda edição. In: “Poesia completa”. Editora Record, 2017.

No entanto, esse trabalho formal entre mágico e cognitivo não foi construído para si próprio, não é um mecanismo autodecorativo, puro desfrute da linguagem pela linguagem. Ao contrário, volta-se para um núcleo rico de dimensões existenciais. Reencontro nestes poemas o criador original de Yacala modulando em tom menor o mistério da vida nos seus confins com a morte. E reconheço veios de uma forte tradição nordestina de poetas da agonia e dos extremos. Aqui ressoam a voz dramática de Augusto dos Anjos, a voz faca-só-lâmina de João Cabral, as vozes lancinantes de Nauro Machado, as muitas e vertiginosas vozes de Ferreira Gullar.
O imaginário é diferente, peculiar a cada poeta, mas em todos repontam a intuição da finitude da carne e o anseio de reter na palavra o pathos do amor e do sofrimento. Percebo um ar de família que aparenta fisionomias diversas, um olhar severo mas ardente que séculos de experiências comuns acabaram formando: ‘Um dia temos de escolher / entre a dor que já padecemos/ e a que tentamos inventar”.

 

 

Distâncias

Alberto da Cunha Melo

Mora lá perto a dor alheia,
mas teu verso não chega lá.
Contra os gritos da casa em frente,
tu pões o Adágio de Albinone
no volume do temporal.

tu pões o Adágio de Albinone
no volume do temporal.
Não chega lá o piedoso,
que reza, tem medo de sangue,
e vai trabalhar de manhã.

que reza, tem medo de sangue,
e vai trabalhar de manhã.
Não chega lá a compaixão,
freirinha magra dos caminhos
e que anda muito devagar.

freirinha magra dos caminhos
e que anda muito devagar.
Só chega lá o amanhecer,
mas, já é tarde, não há gritos
nem ninguém para abrir a porta.

mas, já é tarde, não há gritos
nem ninguém para abrir a porta.

 

Orelha do livro “O cão de olhos amarelos”, 2006. (In: “Poesia completa”, Record, 2017). Republicado na revista Continente Multicultural, Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006. Livro premiado pelo Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras em 2017, ano da morte do poeta. Portanto, o último livro lançado por ele em vida.

Alberto da Cunha Melo em seu último lançamento em vida “O cão de olhos amarelos”, 2006.

 

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