Um artigo de Alberto da Cunha Melo: O outro Mauro Mota

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Na edição da revista Continente Multicultural deste mês, assino um artigo que se prende exclusivamente às dimensões estéticas da grande poesia de Mauro Mota. Aqui, quero ater-me de modo restrito às dimensões éticas, ou melhor, às lições de convivência humana que ele, com igual maestria, nos transmitiu. Embora, seguindo Aristóteles, não subordine a obra de arte à ética, não dissocio dela os artistas. Nesse particular, a ausência do poeta ainda se faz sentir duramente, embora a sua obra esteja ali, na estante, ao alcance de nossa mão.

Estamos num mundo em que, desde crianças, aprendemos a brincar, uns com os outros, magoando-nos. As brincadeiras, entre amigos, crianças ou adultos, caracterizam-se, quase sempre, pela humilhação camuflada em chiste, em mero exercício de bom humor. Mauro Mota era um grande brincalhão – e mais de um amigo já expressou melhor do que eu esse seu modo alegre de ser – mas, brincava com os amigos elevando-os. E não só no sentido figurado, mas dando-lhes cargos honoríficos. Um exemplo disso foi a maneira como conheci o historiador Vanildo Cavalcanti, que me foi apresentado como general reformado que escrevia crônicas diárias para a imprensa local. Perguntou se eu o conhecia e, à minha negativa, mostrou-se espantado – Mas ele escreve para o Diário todos os dias! Mauro jamais conseguiu, com suas apresentações, flagrar-me com um reconhecimento falso. Mas vi muitos, com receio de não estar bem informados, mentirem: – Sim, é claro que conheço” Nesta hora o “apresentado” se descobria e todo mundo caía na gargalhada.

Às vezes, ele aliava a suas honrosas brincadeiras uma generosidade que, para mim, desapareceu do Recife. Como ele estava sempre perguntando como iam os amigos, estava sempre a par dos seus sucessos e vicissitudes. Quantas vezes, ganhando um salário modesto no então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, hoje Fundação Joaquim Nabuco, e apertado financeiramente, para cumprir certos compromissos, recebia, com surpresa, um telefonema de Mauro Mota, o Mauro inteiro: – O grande poeta pode fazer um favor a este seu fiel admirador? – Depois da brincadeira que eleva, a generosidade que salva. Perguntava se eu podia resolver o problema de uma “cobrinha”, que era como ele chamava um texto qualquer que precisava ser feito para o Arquivo Público Estadual, de que era diretor. A “cobrinha” significava um texto sobre uma cidade, uma instituição, ou coisa que o valha, inventado por ele, para socorrer o amigo. Na hora do pagamento, o argumento que não convencia muito, porque o dinheiro saia do seu bolso: – Eu lhe passo logo a quantia para evitar a burocracia, e depois sou reembolsado pela repartição… Ele parecia adivinhar as dificuldades de cada um.

Dizendo essas coisas posso até estar sugerindo que o poeta era um homem rico. Muito ao contrário, era um homem de classe média que precisava escrever diariamente para complementar sua parca remuneração como funcionário público. Acredito até que poderia ter uma vida mais folgada se não fosse tão generoso. E não só com os amigos intelectuais, do seu mundo. Lembro-me bem, nos seus últimos anos de vida, quando eu o assessorava no Arquivo Público, que, nas sextas-feiras, depois do expediente, ele me dizia: – Espere por mim, Zé Tavares (era como me chamava). Ele queria tomar uma cervejinha Cerma, tipo long-neck, com os amigos mais chegados, entre eles estava sempre Laurênio Lima. Quando descíamos as escadas do Arquivo, ele dizia: – Vá para o Dom Pedro (restaurante) e me espere lá, pois vou dar umas ordens ao motorista. Já conhecendo Mauro, ficava de longe e observava que, às escondidas, ele dava a feira ao humilde empregado…

Depois do letal diagnóstico, o poeta me surpreendeu com uma coragem fora do comum diante da morte. O corpo alquebrado pelas aplicações químicas, Mauro brincava e só ficava sério quando me perguntava (fez isso muitas vezes) – Estou me comportando bem diante da morte?

– Sim, meu velho amigo, você se comportou bem a vida inteira…

Do acervo do autor. 
Publicado por Cláudia Cordeiro.

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