Nota do autor. Livro “Clau”

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Entre meus vários textos inéditos, que amareleciam no eterno outono das gavetas (o único outono que os poetas do Nordeste brasileiro conhecem), estava este livro, em sua grande parte escrito nos anos para mim contraditoriamente mesclados de turbulência profissional e êxtase amoroso. Muitos destes poemas foram escritos no estado do Acre, onde trabalhei, entre 1980 a 1982, ora como executivo, ora com sociólogo. Foi Joselito Nunes, diretor da Imprensa Universitária da UFRPE, que anonimamente tem publicado (para honra daquela Universidade) os melhores nomes da grande poesia popular nordestina, bastando citar Pinto do Monteiro, Jó Patriota, Pedro Amorim, Dedé Monteiro, Canção, Lorival Batista, João Furiba, e um dos grandes parceiros de Luiz Gonzaga, Zé Marcolino, que teve a audácia de me convidar, a mim, um poeta “da praça”, um “poeta pracista”, para apresentar ao Conselho Editorial da UFRPE um texto poético. Aceitei, escolhi este livro, e creio que escolhi o mais oportuno.

O que se vai ler não são poemas meramente dedicados a uma única mulher que eu quis conquistar, a pintora Claudia Cordeiro, a quem chamo na intimidade de Clau e com quem divido a minha vida há mais de uma tumultuada década. Eu os fiz depois de pretensamente senti-la conquistada, como a natural irrigação do corpo para manter-se ativo e receptivo, como se fosse um trabalho ininterrupto de conquista. São, portanto, mais que dedicados, pois procuram ser a minha visão completa de uma mulher em particular, além de pretender ser o relato expressivo de nossa convivência e de nosso encontro até agora intenso e duradouro.

Quanto ao título deste livro, ao ser divulgado entre minhas obras inéditas, alguns bons amigos, acostumados com a inconstância amorosa dos artistas, aconselharam-me a mudá-lo, por considerá-lo muito personificador. Eu o mantive por acreditar que a poesia, além de ser uma ânsia pela verdade absoluta, é a singularização ou a personificação máxima dos seres e das coisas (deste e de outros mundos). Se a filosofia nos diz que o ser repete a espécie, é possível que falar na grandeza de uma única mulher é referir-se à grandeza de muitas outras mulheres que vivem, trabalham e amam neste planeta assustador.

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