“A estratégia da poesia”, por Martim Vasques da Cunha

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“Estranha Beleza. Antologia Brasileira da Retranca” (*)

Alberto da Cunha Melo era um poeta apaixonado pelas coisas concretas da vida. Por isso mesmo, na hora de produzir a sua poesia – a mais etérea das atividades, segundo alguns infelizes que pululam por aí – não deixou de lado a realidade do cotidiano e, ao criar a “única forma poética até agora inventada em nossa língua [portuguesa]”, segundo César Leal, inspirou-se nada mais, nada menos que na estratégia do jogo de futebol – esta paixão nacional, já dizia o amado slogan publicitário.

Com onze versos, rimados ou brancos, e em octossílabos  em sua versão definitiva (o que lhe dá aquele ritmo cabralino que supera, por incrível que pareça, o rigor do autor de A Educação Pela Pedra), a retranca é um formato que, justamente por causa do seu limite severo, permite as mais diversas permutações e as mais diversas variações que ajudam a criar um futuro para a poesia brasileira.

Neste livro, o leitor perceberá isso em várias partidas, nas quais não há competição, é claro, mas sim imitação e emulação de um poeta maior, um poeta que ficaria grato por ver o seu jogo superar as incertezas do acaso e as armadilhas do destino. Entre os diversos exemplos desta vitória, temos desde Marco Catalão a Adalberto de Queiroz, passando por João Filho, Igor Barbosa e Wladimir Saldanha, para terminarmos na delicadeza de Nilza Azzi e Nívia Maria Vasconcelos. Nestas amostras da “estranha beleza” desses poemas, é certo que, apesar da falsa aparência de vivermos em uma casa vazia, o que temos, na verdade, é uma “casa tomada” (na feliz visão de Gabriel Sales Macêdo), onde o poeta controla sem pudor, noite e dia, o poder da poesia.

Martim Vasques da Cunha é autor dos livros Crise e Utopia – O Dilema de Thomas More (Vide Editorial, 2012) e A Poeira da Glória – Uma (inesperada) história da literatura brasileira (Record, 2015); pós-doutorando pela FGV-EAESP.

(*) Texto da orelha do livro “Estranha Beleza. Antologia Brasileira da Retranca”
LANÇAMENTO
Sábado, dia 27 de outubro de 2018, das 16 às 20h, na Casa Cultural Villa Ritinha, Rua da Soledade, 35, Boa Vista,

A editora Mondrongo reuniu 35 poetas brasileiros que utilizam a estrutura da Retranca em suas criações. O livro homenageia o seu inventor Alberto da Cunha Melo e revela a força da única forma fixa da língua portuguesa criada por ele.
Organizadores: Cláudia Cordeiro da Cunha Melo e Gustavo Felicíssimo

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