Retrancando na Veneza Brasileira, por Thomas Bruno Oliveira

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Crônica semanal:
Retrancando na Veneza Brasileira
A União, 03-Nov-18

É sempre prazeroso descer a serra e ir à Veneza Brasileira. Dessa vez não para visitar meus amados parentes, mas para participar de um lançamento de livro, num bate e volta intenso e cheio de brilho até a malha urbana do velho Recife. O livro ̶ Estranha Beleza: antologia brasileira da retranca, em memória de Alberto da Cunha Melo, seu criador, foi publicado pela editora Mondrongo e organizado por uma parceria entre a viúva e entusiasta de Alberto, a Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, e o editor e poeta Gustavo Felicíssimo.

Ainda pela manhã, saindo de Campina Grande, não deixamos de contemplar o início do ato em defesa da democracia realizado na Praça Coronel Antônio Pessoa (era véspera da eleição presidencial) e os tons vermelhos da manifestação amainaram para um rosa que coloria a Avenida Brasília com seus Ipês florando e embelezando nosso caminho. Aliás, o mesmo rosa foi estampado na geometria da capa do livro que é na verdade uma grande homenagem ao poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo o criador do gênero retranca, forma fixa legitimamente brasileira, cuja produção atual no país foi mapeada e transformada em livro demonstrando que o gênero não perdeu vigor com a morte do seu criador que sem dúvidas é uma das vozes mais relevantes da poesia brasileira contemporânea. A Retranca possui limite severo e consiste em onze versos com oito sílabas poéticas; no quarteto: o segundo verso rima com o último e o dístico entre si. No terceto: o primeiro verso rima com o terceiro e o dístico, dois versos que rimam entre si. Poema de fôlego com ponto só no final.

A altitude diminuía e o calor aumentava, e logo chegamos ao Recife, que no início da tarde de sábado nos poupava de seu trânsito intenso. Estavam em minha companhia os poetas e amigos José Edmilson Rodrigues, Carlos Almeida (aniversariante do dia) e José Vieira da Silva que o tempo todo declamava poesias (algumas delas de sua autoria) dando suavidade e leveza à viagem. Enquanto dirigia, eu literalmente viaja em poesias. Já no coração do velho Recife, fomos para a Villa Ritinha, um aconchegante sobrado centenário que respira o passado, desde as pinturas de parede que estão sendo descobertas atrás da cal, à mobília clássica do café poético. Antes do lançamento, tive o prazer em conhecer o Prof. Roberto Figueiredo (amigo de Edmilson) filho do ex-alcaide de Campina Grande, o Bento Figueiredo. Conversamos muito sobre a Campina de outrora, seus chafarizes, seu traçado urbano e sua primeira biblioteca pública.

No evento, as falas dos organizadores, do escritor Urariano Mota (o mesmo da oração ao Canhoto da Paraíba), dos poetas presentes, se transformaram em uma ode ao Alberto da Cunha Melo que foi ainda mais especial com a presença de um ícone da cultura pernambucana, a poeta e cantora Myriam Brindeiro, que no alto de seus 81 anos esbanjou energia e musicalidade cantando ‘Desencanto’ do Manuel Bandeira, cujo aniversário de morte foi dias antes. Explicou Myryam que Bandeira adorava ver seus versos musicados e ali fazia essa singela homenagem.

Enquanto os poetas presentes liam suas retrancas, parecíamos navegar em mar aberto, um transe emocionante e coletivo de amor à poesia. O Alberto ali estava – com toda sua poesia – na proa desse navio imaginário; sensível como era, agradecido por esse inesquecível momento da poesia brasileira.

Thomas Bruno Oliveira entre poetas paraibanos.
Recife, 27 de outubro de 2018. Lançamento da “Estranha Beleza. Antologia Brasileira da Retranca”. Ed. Mondrongo.

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