“O livro e a borboleta”, crônica de Alberto da Cunha Melo

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O que ainda não está escrito desaparecerá”
Psístrates (séc. VI a.C.)

Quando eu era mais otário do que sou hoje, acreditava que a política (a partidária) era uma escolha entre valores alternativos visando ao bem comum.”Valores” sempre os tive como os da ética, da justiça e da fraternidade, principalmente. Como a minha proposição está longe de ser um postulado ou, muito menos, um axioma, os políticos brasileiros poderiam concordar com ela, mexendo no sentido da palavra “valores”, que se reduziriam aos monetários, e substituindo “comum” por próprio ou individual. Não se deixem enganar, meus milhões de leitores, o arranca-rabo atual, entre os pinóquios do Congresso, é por dinheiro ou por poder, ou as duas coisas juntas, os únicos valores que estão em causa.

Esta crônica, como outras transgressões verbais de minha autoria, não é incoerente ou muda de tema de propósito, mas por incompetência mesmo. Digo-o por auto­-comiseração e não por modéstia, este orgulho disfarçado. Meu mundo é o mundo das letras, também cheio de safados (se vocês lessem o que li sobre Bacon…), e para ele volto quando quero, e estamos conversados.

Estou em Natal e vim para cá conversando com meu amigo-irmão, Pedro Vicente, sobre o melhor suporte para se ler um texto, se o venerável livro ou o janota monitor eletrônico. Gosto se discute,”sim senhô”. Conheço professores que gostam de cada droga… Bem, sou da gang do livro, e uma das razões de minha escolha foi apresentada pelo genial Millôr Fernandes: “livro ‘não enguiça”. Quando menino, o livro me seduziu primeiramente pelos sentidos, ou melhor, pelo sentido do olfato. É difícil reaver pelas lembranças o perfume do primeiro livro que li, Dom Quixote das Crianças, de Monteiro Lobato, um exemplar novo em folha. Às vezes tento recuperar no mundo em volta o perfume daquele livro. Veio do pinheiro de que fizeram o papel?

Outros perfumes, os dos gibis, climatizando as fantasias. Nada chega ao intelecto sem antes passar pelos sentidos (nihil est intelectu quo non fuerti in sensu) disse um velho pensador, Tomás de Aquino? Como só vivo liso, não posso comprar livros novos, mas aqueles que recebo de presente não têm o aroma dos de antigamente. “Mudou o livro ou mudei eu?”. Trabalho, hoje no setor de Obras Raras, da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco. Há muitos livros que os jesuítas deixaram por aqui quando expulsos pela corte portuguesa. Sou uma obra velha entre obras raras, mas sinto que livros daquela coleção não têm perfume, têm cheiro de remédio e dos insetos mortos pelo nitrogênio.

Li não sei quando e não sei onde que a leitura silenciosa começou no século X. Descobriram um frade, que depois virou santo (como era costume na época), lendo calado, no seu canto. Por susto e não por preconceito de cor dos frades, quase derrubaram a imagem de São Benedito (já era nascido nesse tempo?). O que o pré-santo tinha diante de si deveria ser um rolo de pergaminho ou de papiro manuscrito, pois Gutemberg estava longe de nascer. Eu sequer imaginara que antes do século X os poucos alfabetizados que existiam liam todos em voz alta. Posso imaginar a balbúrdia da Biblioteca da Alexandria.

Se alguém me perguntasse quais os maiores prazeres da vida, eu responderia que, por ordem de preferência, são o sexo, a bebida alcoólica e o livro. Do livro feito de trapo (mais resistente), ao feito de celulose (fragílimo), há toda uma história de amor. É a única fonte de prazer que, na velhice, pode substituir uma mulher ou uma garrafa de aguardente. Erradicar o analfabetismo e incentivar o hábito de leitura não é só preparar o homem para a vida, mas também para a velhice e a morte.

Leia a “Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo. Record, 2017.

Na base da história do livro está a base da intercomunicação humana. Se combinarmos informações de Marcel Cohen e Walter A. Neves, chegamos à conclusão de que, presumivelmente, a linguagem articulada começou há 400 ou 300 mil anos, a escrita há seis mil anos e o alfabeto há 3.500 anos. Quando temos um livro na mão, temos a história de nossa espécie, deste sujeito tão mal denominado de homo sapiens.

Os jovens — quase tudo lhes é permitido, exceto serem burros — olham com desprezo o livro e vão pilotar o seu computador, esquecidos de que esse troço, considerado de última geração, vai ser um ninho de ratos, amanhã. Virão outros ninhos, mas o livro, como o conhecemos, permanecerá.

Todo sujeito que consegue comer com garfo e faca, sem lambuzar o bigode, sabe que os meios de comunicação são complementares e não excludentes.

Sim, o livro é uma coisa velha. Um lírio e uma borboleta também são.

Coluna Marco Zero. Revista Continente, setembro/2005.

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