Asteriscos, na “Poesia completa”

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Como um suicida que deixa
uma carta em cima da mesa,
para descansar a polícia,
deixo o meu poema no mundo.

Minha dor lógica jamais
necessitou de testemunho
outro, que não fosse o meu corpo,
sob os ataúdes do Céu.

Pisei nas calçadas da vida
(de cabeça baixa) e gritaram;
desci sem nenhuma palavra
e eles morreram de vergonha.

O telefone negro toca
na sala interminavelmente
deserta. Que nova esperança
dirá um telefone negro?

Os meus amigos têm olhos
horríveis, diante de mim.
Mas não pergunto o que lhes fiz:
deixo o meu poema na mesa.

Do livro Círculo Cósmico. Recife: UFPE, separata da revista Estudos Universitários, 1966. In: Poesia completa, Record, 2017, p. 44.

 

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