“Yacala”: Poema de um Peregrino, por Luis Manoel Paes Siqueira

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Existem duas leituras básicas em Yacala, do poeta Alberto da Cunha Melo. Uma é traçada pelo escopo do artista sobre as palavras, definindo forma, métrica, plasticidade e ritmo, além de uma estória envolvente e sedutora. A segunda leitura, distante dos especialistas no ofício da crítica literária, é a do homem debruçado sobre o cosmo, numa incansável procura pelo criador.

Essa segunda leitura, de um perfume neobarroco metafísico, permeia todo o poema angustiadamente numa espécie de autofagia lírica. Chega até a ensaiar passos de uma via crucis negra, onde através de “desmaios” o personagem se aproxima do seu sublime final.

A religiosidade na poesia de Alberto foge do controle do seu consciente. Ela é tão presente e forte que o vem acompanhando desde o início de sua carreira literária, e se denuncia principalmente na ansiosa preocupação que ele possui em negá-la.

Como humanista, Alberto da Cunha Melo conseguiu, também com Yacala, escrever uma prece ao avesso: “enquanto há carne, o homem fede”, separando-a daquela “catequese do amor, em novo calvário, regressando ao fogo primário”.

Utilizando figuras fortes e carregadas de magia tais como elementos de matemática e da mecânica celeste, Alberto perscruta os mesmos labirintos percorridos por Pitágoras e pelos mestres da Gnose nos primórdios do cristianismo. No seu poema, o bem e o mal se confundem. A luz e as trevas se misturam, a ponto de ficarmos todos admirando “as porteiras do vazio, / ali no eterno, ali bem perto…” E enquanto galáxias e estrelas se consomem e renascem, ficamos assistindo a nossa própria solidão, envolvidos em números e cálculos cotidianos, mesquinhamente expostos sobre a mesa, junto das sardinhas e dos tomates. Junto dos nossos frios computadores. Uma solidão definida como “a impossibilidade suprema de ser socorrido” e bem maior do que aquela do “anjo caído”, que, por não ter sido feito homem, “não fede”.

Outras leituras existem, mais técnicas e específicas. Mas que dentre os títulos que ora vozes experientes dão ao poeta de Jaboatão dos Guararapes (e endosso o de “um dos melhores poetas vivos do Brasil”), que acrescentem também o do “Poeta Peregrino” em ansiosa procura pelo Poeta Maior. Aquele criador das estrelas, do vazio, da vida e da morte, do bem e do mal, das borboletas e dos homens. Inclusive daqueles que se dizem ateus, mas que não se cansam de procurá-lo.

Luis Manoel Paes Siqueira é geólogo e escritor.

 

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