“Epifania”: prefácio do livro “Em Mar Alberto” de Newton Messias

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EPIFANIA

A poesia é um centauro. A faculdade intelectiva e aclaradora que articula palavras deve movimentar-se e saltar juntamente com as faculdades energéticas, sensitivas, musicais.  (Ezra Pound. A arte da poesia. Cultrix, 1976)

A proximidade com um autor e sua produção literária nem sempre favorece uma percepção mais aguda da obra, mas sempre é possível traçar um perfil de sua escrita.  Newton Messias, professor de música clássica, eclodiu para a “música das palavras” em tempo que ele considera tardio, conforme revela em sua Nota do Autor.  O registro desse tempo está no seu livro de estreia Passagem (2017), prefaciado por Sammis Reachers, também editor:

“Seu verso ora livre, ora liberto em rimas, tem o toque desconcertante e álacre da poesia marginal; alma e musicalidade são o tônus de suas composições, onde toda uma herança de modernos faz-se ouvir, ruído de fundo, eco a perpassar sua prosódia prenhe de linguagens mestiçadas.”

Destaque-se, nessa poesia primeva, este poema premonitório: “Pescador// Cá/ onde a rede é o mar/ meu poema vou lançar// de largo trançado/ pesca quem quer ser pescado// lá/ fora do mar ácido/ o vento convida o pássaro// (martim caçador?)/ a ser também pescador.”

“Caçador” e “pescador” simultaneamente, ao modo “centauro” de Pound, Newton não parou por aí: assíduo internauta expos em ritmo crescente, nas redes sociais, a sua produção poética revelando especial mestria no soneto e na retranca, sem abdicar do verso livre, todas essas formas em embalagens do cotidiano espesso e contraditório das gentes, do país, do mundo e dele mesmo. A cada passo, uma nota, a cada estada, um compasso e várias partituras, como as retrancas expostas na coletânea Estranha Beleza. Antologia brasileira da retranca  lançada em dezembro de 2018, pela Mondrongo.

E eis que agora estamos nesta extensa rede de 101 retrancas Em Mar Alberto. Nela o pescador-caçador atira sem medo a sua isca, seu modo de ser e fazer poesia.

Anote-se que o poeta não teme desconstruir, a partir do título, quaisquer subterfúgios e  assume, de pronto, o discípulo que envereda na natureza estética da “retranca” e tem seu inventor Alberto da Cunha Melo como mestre. Há neste livro a revelação de uma facilidade de compreensão, uma rapidez, uma quase violência e, certamente, uma vividez da estética que Newton Messias adota, declara e enfatiza em sua Nota do Autor.  Raro exemplo de clareza de propósitos dificilmente encontrado na literatura brasileira.

“Revelação” parece ser mesmo a palavra chave para esse vigor com que o poeta desdobra sua rede, em seu mar de palavras. Este livro é solar, verdadeira epifania, graças à rara percepção intuitiva de Newton Messias. Mas o momento numinoso não é apenas exterior, de ver e saber o caminho, mas especialmente de vivê-lo em um doloroso encontro. Na primeira –  espelho d’água das oito partes em que se distribuem  as 101 retrancas, o poeta contabiliza os “danos” dessa entrega:

A PRÓPRIA VOZ

Difícil achar a própria voz
no curto espaço de uma vida:
o tempo é curto mas é grande
o estrago de nossa ferida,

que nunca sara totalmente
(quem afirma o contrário mente)

mas quem sabe o que procuramos
não seja o grito de tormento
que vem de todos esses danos:

da ferida aberta nos flancos,
que sangra, se de fato humanos.

Além dessa primeira “partitura” – espelho dáguatem-se em sequência: água no joelho, arrecifes, água nos ombros, Retrancas de Peroba, Retrancas de Aldeia, sereias: mar aberto e água sobre a cabeça.  Em todas elas há de se anuir que a melopeia é a tônica da poesia de Newton Messias, sua profissão fê-lo herdeiro de uma pauta de palavras que reflete a vida que leva e que o leva a construir uma força geratriz que incita quem o lê a continuar a viver.  Mas não só o verso medido em octossílabos e o sistema de rimas característicos da retranca delatam o profissional da música: em vários momentos o próprio vocabulário conspira:

PRELÚDIO

Impagável show de cigarras,
grilos, sapos e passarinhos
em Aldeia, Camaragibe,
lugar encantado, à tardinha

(deu-me vontade de aplaudir,
mas isso não se faz aqui);

eu vi cinco palmeiras gêmeas
(uma só raiz) e um eucalipto
trocando de roupa em sua frente;

eu ouvi um coro afinado
cantando um moteto no mato.

Essa composição se encontra em Retrancas de Aldeia (p.88), um dos momentos mais felizes do livro: o eu lírico se faz plateia para descrever a afinadíssima harmonia da paisagem como, entre outros, no poema INSETOS, em que melopeia e fanopeia se unem para sagrar o instante lírico: natureza e poeta em plena simbiose:

Que mundo louco o dos insetos:/ asas nervosas para voos/ curtos, sem destino, suicidas;/ naves desembestadas, doidas; //um surta, girando no chão,/ outro esbarra no lampião;// feios, sem destrezas nem tranças,/ criaturas encouraçadas/que aterrorizam as crianças;// a borboleta cor de gema/ passa, e zomba do meu poema.

Em sereias: mar aberto (p. 95) destaquem-se metapoemas em que a personificação da poesia lega especial beleza às Retrancas, assim em COLHEITA (p.97 –  poema muito bem escolhido para quarta capa),  POEMA FERIDO (p. 99) e, entre outros, A VOZ DO DIA (p. 98) que aqui exemplifica a estratégia estética do poeta:

Cada vez mais rara, a poesia,
sorrindo, me acena de longe,
atrás de árvores e mulheres
se diverte de esconde-esconde:

borboleta em chamas no ar
que não se deixa capturar;

o dia, porém, alto e claro,
como este sol, a todos grita
e de ninguém esconde nada:

— é um poema tudo o que vês
e escrever é uma insensatez.

A súbita tomada de consciência no dístico final causa um efeito essencial que nos remete a Emil Staiger: “em poesia lírica não há distanciamento”. A dose de realidade não supera o “um no outro do lírico”. Na verdade, seu efeito é contrário: intensifica a presentificação do instante: “borboleta em chamas no ar/ que não se deixa capturar”.

Ainda nessa parte, o poeta estabelece diálogos com a poesia de João Cabral de Melo Neto, Alberto da Cunha Melo e Carlos Pena Filho revelando o momento afligente da poesia e do poeta no contexto social, não ao estilo de Miguel Torga que denuncia e explicitamente convoca à ação: Newton Messias apenas denuncia, na sua competente maneira de indignar-se. Assim também em BAGATELAS, AZUIS, UM OUTRO DESMANTELO, entre outros, ao modo do mestre Alberto da Cunha Melo no exemplar poema “Casa Vazia”.

Com esta publicação Em mar Alberto, Newton Messias assinala sua presença definitiva no mundo da poesia e instaura mais um momento inédito da “Retranca” que parece predestinada aos cuidados do poeta editor Gustavo Felicíssimo também exímio na utilização dessa forma densamente utilizada em seu livro Procura & outros poemas, já em terceira edição, além de editor da coletânea Estranha Beleza. Antologia Nacional da Retranca (2018). Dessa maneira, essa forma fixa, única da Literatura Brasileira, conforme o mestre e poeta César Leal, ganha corpo, voz e vez: em oito livros – além dos citados: Gato Pipoca (literatura infantil), de Nilza Azzi; e quatro de Alberto da Cunha Melo: Carne de Terceira, 1996; Yacala (1999); Meditação sob os Lajedos (2012) e Outras Retrancas (2017). Este último, na sua Poesia Completa.

Para falar a verdade eu gosto mais de pescar do que de escrever, mas desde menino me sinto condenado a satisfazer aquela estranha necessidade”, revela Alberto da Cunha Melo em entrevista de 1999. Assim, fica claro que a condição de poeta não constitui um propósito, mas um destino preconcebido pela solidão que só pode ser compartilhada, conforme Emil Staiger, “apenas por aqueles que se encontram na mesma disposição anímica”, sem distanciamento, Em Mar A(l)berto. Ao leitor deste livro cabe desejar um ótimo mergulho neste momento de rara beleza da poesia de Newton Messias: pura epifania.

Cláudia Cordeiro da Cunha Melo
Professora, pesquisadora, ensaísta e antologista

EM MAR ALBERTO
Pré-venda (clique aqui)

Autor: NEWTON MESSIAS

Gênero: POESIA / RETRANCA
Nº de páginas: 136
Formato:14 x 21cm
Ano: 2019
Preço: 32,90
Detalhe: Trata-se do segundo livro de poesia de Newton Messias. Este, todo escrito dentro da forma da Retranca, em octossílabos. Lançamento marcado para 23 de março. Quem adquirir antecipadamente receberá o livro em casa, autografado pelo autor.
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