ATRÁS DE OUTRA DALILA

0

“Já que esses mistérios me ultrapassam,
finjamos tê-los organizado.”
Cocteau (1889-1963)

 
Vocês sabem o que é dalila? Não estou falando na personagem bíblica, que desposou Sansão, um hebreu mais forte do que Schwarzenegger, e num dia escabroso o capou, ó filistéia, enquanto dormia. Quando garoto, meu pai falou-me várias vezes dos tempos dos saraus, em que as pessoas declamavam poemas “ao som da dalila”, mas não me lembro se lhe perguntei o significado, apenas que me ficou na memória um significado único: dalila era um tipo de acompanhamento musical. Mas, de onde viera, quem fora seu autor? Perguntas como essas eu nunca encontrei resposta para elas em dicionários e enciclopédias famosos e em todos os outros que encontrei na Biblioteca do Estado. Comecei por dois muito bons, Webster’s e o Larousse Cultural e terminei desistindo.

 
Creio que dalila, na acepção de acompanhamento, não consta de nenhum verbete, por se tratar de uma moda de salão, que sumiu com o fim dos recitais. Em letra impressa encontrei quase nada. Numa edição da revista recifense A Pilhéria, de 1931, o escritor Limeyra Tejo publica um trecho de reportagem, onde diz: “(…) Ia recitar um soneto de sua “larva” (sic), Ingrata. A voz do bacharel sincroniza com uma dalila arranjada numa viola”. Uma vez consultei o historiador Nilo Pereira, que já tinha seus 70 anos naquela época, e ele me disse que nunca ouvira falar em dalila. Ele era do Rio Grande do Norte: será que era só praticada em Pernambuco?

 
Algo que guarda certa relação com a palavra, mas de modo bastante individualizado, encontrei no Dicionário Musical Brasileiro de autoria de Mário de Andrade, “o maior crítico de música do Brasil”, segundo o mestre Sebastião Vila Nova. Vamos ao verbete escrito pelo poeta de 22: “Dalila – trecho orquestral que acompanhava o monólogo ‘Cerração no Mar’, declamado nos intervalos dos bailes pastoris, na Bahia de outr’ora”. Enquanto na Bahia a dalila era acompanhamento de um determinado monólogo, isso não acontecia em Pernambuco.

 
Liguei para o grande sonetista brasileiro, Waldemar Lopes, hoje com 96 anos de lucidez, ele disse que assistiu a muitos recitativos ao som da dalila. Lembra-se de que era uma música que podia ser tocada por qualquer instrumento e era sempre ela mesma, não importando o tipo de poema e seu conteúdo. Disse que também testemunhou recitativos cuja dalila vinha de um disco do gramofone e sugeriu que consultasse o acervo discográfico do Jornal do Commercio. Fui lá, e me disseram que todo o acervo tinha sido doado à Fundação Municipal de Cultura, aí desisti por completo, porque conheço o serviço público.

 
Nos começos do século 20, o classicismo nas artes predominava nas elites, resquícios da aristocracia que teimava a permanecer nos espíritos. O meu amigo Urariano Mota, para ajudar-me, mandou-me pela internet umas pistas excelentes para a minha busca. Uma delas foi o sucesso no Brasil da ópera de Camille Saint-Saens, Sansão e Dalila. Um dos trechos instrumentais dela – é a hipótese – teria dado origem à dalila brasileira. A outra pista nada mais é do que a confirmação de que aquele acompanhamento musical era muito popular no Brasil. Trata-se de uma composição (polca) de José Maria de Abreu (Zequinha de Abreu) e Luis Peixoto. Eis a estrofe:

 
“Atenção acordes de Dalila
Seu Gil vai recitar
Formam roda
E o moço encalistrado
Começa a gaguejar.”

 
Bem, parece que a contribuição de sua majestade, a internet, ficou por aí. Para quem pensa numa identidade da dalila com os toques de viola dos violeiros-repentistas do Nordeste, engana-se, porque para cada gênero de cantoria há uma melodia própria, e não haveria uma dalila para cada espécie de poema (soneto, sextilha…). Não acredito que se trate de uma moda de salão existente, na época, apenas em Pernambuco e na Bahia, pois, se a hipótese da ópera é correta, ela deve ter ocorrido inicialmente no Rio de Janeiro, onde Sansão e Dalila estreou em 1898. O Império caiu, mas os salões e suas modas continuaram por muito tempo.

 
Depois de tantas circunvoluções em torno de um troço que já morreu, meus milhões de leitores devem estar impacientes, a perguntarem: E daí?

 
E daí que o assunto vem despertando, há tempos, o meu interesse, porque trata de um tipo de difusão e recepção da poesia aliada à música. Poesia e música têm um gene comum: o ritmo, caso eu defina a poesia como linguagem simbólica que se expressa de modo não contínuo, rítmico e conotativo (este, aliás, já implícito no atributo simbólica). Tudo que se refere ao poema, sua estrutura, sua musicalidade e sua difusão, me interessam. Mesmo formas de tornar mais consumível aos leigos a poesia, como a dalila, que já morreu, me chamam a atenção.

 
A crônica deste mês tem, também, segundas intenções, que é envolver na conversa pessoas que saibam mais coisas sobre a dalila do que eu. Podem escrever, desancar esta crônica, contanto que coloque no lugar dela conhecimento histórico e o testemunho idôneo. Por hoje, basta de entupir os ouvidos dos leitores com a filistéia Dalila.

 
ALBERTO DA CUNHA MELO
Continente Multicultural, coluna Marco Zero. Recife: n. 55, julho de 2005, ilustração de Bueno.

 

 

Compartilhar.

Powered by themekiller.com