Ordem e caos em “Relógio de Ponto”, por Isabel de Andrade Moliterno

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Publicação do corpo é o terceiro livro de Alberto da Cunha Melo. Foi lançado em 1974, na coletânea intitulada Quíntuplo, em que o autor aparece como Alberto Cunha Melo, ao lado de mais quatro poetas pernambucanos: Jaci Bezerra, José Carlos Targino, João Ladelino Câmara e Severino Filgueira. O prefácio é de César Leal, que apresenta os autores ao público: “Cinco poetas novos do Recife aparecem nesta antologia, todos muito diferentes entre si, mas unidos, estruturalmente, em seus princípios criativos, por um clima intelectual comum” [1] .
A poesia de Alberto da Cunha Melo é apresentada da seguinte maneira:
Uma visão racionalista do mundo — racional e ao mesmo tempo paradoxalmente lírica — torna Alberto da Cunha Melo inclinado a reflexões de natureza ética, em que a ironia não deixa de estar presente, uma certa queixa contra o silêncio — o silêncio apenas necessário — daqueles que se tornaram guardas de Sião das editoras e protegem suas cidades, entrincheirados nas barricadas do controle das instituições acadêmicas. O quarteto em metro octossilábico é a característica essencial de seu verso — metro raríssimo na poesia de língua portuguesa. (…)
A linguagem conotativa possibilita ao leitor muitos níveis de sentido. Mas creio que Alberto da Cunha Melo se refere — antes de tudo — às interferências, aos ruídos criados pelos que não desejam senão atrapalhar o trabalho do homem mais desarmado de nosso tempo: o poeta.
Mas se o poeta resiste, o mundo se afasta velozmente, impedindo-o de participar dessa urgência presentificada em toda a realidade fenomênica. [2]
“Relógio de ponto” está em Publicação do corpo [3] e expressa a resistência de Alberto da Cunha Melo ao conformismo diante de uma ordem que não apenas oprime o poeta, mas todos os homens. O poema apresenta um tom metalingüístico e insinua a crítica do autor com relação a esse silêncio dos escritores protetores e protegidos das grandes editoras e seus interesses.
Com cinco quartetos de oito sílabas poéticas, o texto conta com uma construção típica de Alberto da Cunha Melo, a qual se articula com os demais elementos linguísticos para a criação da expressividade no poema — o que será observado ao longo desta análise.

Relógio de ponto

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.
Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.
Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.
O eu-lírico do texto apresenta-se em primeira pessoa. Mas não se trata simplesmente de um sujeito que expressa seus sentimentos a um outro. O eu-lírico é explicitado pelos pronomes e verbos relativos à primeira pessoa do plural. Com isso, ele inclui o leitor como sujeito do discurso, chamando a atenção para o fato de compartilharem a mesma natureza, humana. O texto tem um caráter reflexivo, aliado a um desejo que vai, aos poucos, se mostrando e se intensificando.
A primeira estrofe tem o formato de um texto argumentativo. Há uma frase afirmativa — “Tudo que levamos a sério/ torna-se amargo.” — que é logo expandida, por meio de uma ilustração: “Assim os jogos,/ a poesia, todos os pássaros,/ mais do que tudo: todo o amor.” Desse modo, de início, se instaura a reflexão. O leitor é levado a pensar junto com o eu-lírico. O uso do pronome indefinido tudo, do adjetivo todo(s), dos verbos no presente do indicativo e do artigo definido contribui para a generalização da mensagem, explicitando o raciocínio lógico, abstrato.
Percebemos um eu que se abstrai da situação imediata, dos ruídos, da distração, para pensar sobre a vida. Esse eu pode estar em qualquer lugar, qualquer tempo, uma vez que não há elementos na linguagem utilizada que o particularizem. Com isso, o texto se aproxima do leitor e é facilmente atualizado. Observamos um eu que fala e a única informação que temos a seu respeito é que é humano, como nós.
Esse eu que pensa não é, de maneira nenhuma, um eu frio, calculista, pois se envolve afetivamente com o seu pensar. Esse envolvimento pode ser verificado logo no primeiro verso, pelo uso do verbo na primeira pessoa — uso que se estende até a última sentença. A língua portuguesa oferece uma opção de apagar o envolvimento do eu com o conteúdo que expressa por meio da terceira pessoa. Assim: “Tudo que o homem leva a sério”, essa escolha não interferiria nem no metro do verso. No entanto, o eu se inclui como sujeito do texto, assim como inclui o leitor. Ele se observa e convida o leitor a se observar também. Não reflete sobre algo distante, mas sobre sua própria vida, suas próprias atitudes, que também são as atitudes do leitor e do homem de modo geral.
A emotividade, já insinuada pelo uso da primeira pessoa, se intensifica a cada verso. Ainda na primeira estrofe, no segundo período, temos: “Assim os jogos,/ a poesia, todos os pássaros,/ mais do que tudo: todo o amor”. A enumeração é iniciada pelo conectivo assim, mostrando que esse é apenas um recorte para explicar a primeira afirmação, que diz respeito a “tudo que levamos a sério”.
O primeiro item, os jogos, com artigo definido e sem nenhum modificador, pode ter uma série de sentidos, mas, no geral, se refere a brincadeira, passatempo, competição. O sintagma a poesia introduz a metalinguagem no texto, referindo-se ao próprio fazer poético, e, também devido ao artigo definido e à ausência de modificadores, pode aludir à beleza, à arte. Na seqüência, temos: todos os pássaros. Nesse caso, o artigo definido, precedido do adjetivo todos, serve não só para generalizar o termo pássaros, mas para dar ênfase ao substantivo no plural, o que chama a atenção para a quantidade, variedade, e todo o valor significativo de pássaros. Esses, com sua diversidade de espécies, cores e cantos, presentificam a perfeição da natureza, apelando aos sentidos do leitor para as múltiplas cores, sons e formas, remetendo à irracionalidade e à liberdade, pois são capazes de voar, o que sempre foi invejado pelo homem.
No quarto verso, o último item da enumeração, o amor, é apresentado em superioridade a todos os anteriores. Isso ocorre pelo uso da expressão comparativa “mais do que tudo”, pela pontuação — os dois pontos chamam a atenção para o que segue —, pelo uso do adjetivo todo, que intensifica o sintagma o amor, e pelo artigo definido, que, ao contrário dos artigos anteriores, particulariza o termo amor, indicando que há um único amor que abarca as mais diversas maneiras de amar.
Com a gradativa especificação dos itens enumerados, o eu-lírico demonstra seu envolvimento afetivo com o que expressa, começando com o uso do modificador todos no terceiro verso e culminando com “mais do que tudo: todo o amor” no quarto verso. O eu lírico alerta para o perigo de levarmos tudo a sério, pois com isso, transformamos tudo em coisas amargas, sem cor, sem forma, sem vida. Os jogos, a poesia, os pássaros, o amor apresentam em comum o fato de darem prazer ao homem, o que se opõe a amargo, que significa o sofrimento, a tristeza, o sabor que aperta e leva ao desprazer.
Talvez seja válido observar a gradação no plano semântico: os jogos vinculam-se a atividades em que os homens interagem, prazerosamente, seja para vencer um ao outro, seja para trabalhar cooperativamente; a poesia também está ligada à interação dos homens, mas vai além disso, pois também envolve o contato do homem com o mundo a sua volta, o belo que está dentro e fora dele; os pássaros representam a Natureza, o que é externo ao homem, mas com quem busca interagir; o amor é um sentimento que consideramos humano, mas que possibilita que este vá além de si mesmo, que se projete para o outro e para tudo a sua volta — é o que há de infinito no homem (durante séculos, acumulamos muita literatura a esse respeito). Conforme se amplia a enumeração, maior é a indignação do eu-lírico, que observa como o homem pode destruir o que há de mais belo. O termo amargo expressa bem o horror diante da capacidade que o homem tem de transformar tudo em sofrimento, pois, embora possa ser compreendido de maneira metafórica, apela para nossos sentidos: quantas vezes já colocamos algo amargo na boca e repelimos? Esse horror se exprime, ainda, no plano sonoro, com a recorrência de vogais fechadas [o]e [u]no quarto verso, precedidas pela estridente [i], que também sugere fechamento: “mais do que tudo: todo o amor”, o que reforça a idéia de sofrimento, travamento, em amargo.
Ainda pensando no plano sonoro, há, na primeira estrofe, a aliteração da oclusiva surda [t], que instaura um ritmo duro, reproduzindo o trabalhar contínuo de um relógio, chamando a atenção para o título do poema: “Relógio de ponto”.
Relógio de ponto, como sabemos, é o relógio provido de dispositivo onde o empregado introduz seu cartão para registrar sua presença no local do trabalho. Ou seja, é o aparelho que “lembra” o funcionário que ele tem que levar o trabalho a sério. Aquele que leva algo a sério é alguém que age com gravidade, que cuida de suas obrigações com pontualidade. Mais à frente, exploraremos essas imagens, mas, logo no início do poema, o leitor é impelido a refletir sobre as funções do homem no universo. É comum, em nossa sociedade, deixarmos de ter prazer para trabalhar. O trabalho é tido como algo que não se relaciona com nossas vidas. Por outro lado, transferimos nossas relações com o trabalho para outros aspectos de nosso cotidiano, tratando tudo como se fosse obrigação, tirando o prazer das coisas mais simples, e das mais importantes, tornando tudo amargo.
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.
Na segunda estrofe, o envolvimento do eu é mais marcante. O presente do indicativo cede lugar ao futuro: faltaremos e atravessaremos podem expressar tanto uma certeza do eu-lírico, que continua a avaliar seu comportamento, como podem exprimir um desejo, e até um convite ao leitor, suscitando uma sensação de esperança, em um mundo regido pelo relógio de ponto. Assim, o que o eu-poético vê e quer é a mesma coisa, o que torna o texto, na mesma proporção, mais persuasivo e subjetivo. A imagem dos córregos e das chuvas também contribui para a intensificação da subjetividade. O leitor tem acesso ao pensamento e ao desejo do eu-lírico.
Faltar a um compromisso equivale, no poema, a não levá-lo a sério. Isto se apresenta como uma alternativa, uma possibilidade de nos salvarmos, sem transformar a vida em algo amargo. O verbo faltar, derivado de falta, pode significar o ausentar-se de algum lugar e também erro, pecado. Assim, o eu-lírico chama a atenção para o fato de que é possível errar ou não cumprir alguma promessa sem nos amargurarmos.
O termo compromisso vincula-se às obrigações, no geral, e, especialmente, a trabalho, em virtude do título. O pronome indefinido algum opera com um modificador e, ao lado do adjunto na Terra, serve para reduzir a importância do compromisso. Algum compromisso equivale, portanto, a um compromisso qualquer, pequeno em um planeta tão grande como a Terra, com tantos “compromissos”, das mais diversas ordens.
A essa idéia coordena-se, através da conjunção e, que assume valor consecutivo, a imagem de atravessar os córregos cheios de areia, após as chuvas. Essa imagem opõe-se à idéia do levar a sério, do relógio de ponto, pois apresenta o homem em contato com a Natureza, o homem que sente e não é apenas um número em uma máquina. O verbo atravessaremosindica transpor limites, lançar-se ao desconhecido. É possível observar, aqui, um contraste com o termo Terra, uma vez que este pode se referir, num plano figurativo, ao universo profano, do corriqueiro, enquanto o ato de atravessar possibilita o contato com o diferente, com o sagrado, que, no poema, equivale ao belo e à vida sem limites. Enquanto o trabalho aliena e reifica o homem, afastando-o da Natureza e transformando-o no próprio relógio de ponto, frio e mecânico, por meio da obsessão do levar a sério, a imagem dos versos 7 e 8 apresenta o homem em contato com a Natureza e consigo próprio e introduz o inesperado, o pulsar espontâneo da vida.
A própria palavra córrego traz o sema do inesperado e da agitação. Córregos são sulcos abertos na terra pelas águas que correm com as chuvas, podem se tornar riachos ou permanecer pequenos veios de água. De todo modo, o córrego pode nascer espontaneamente em lugares onde menos esperamos. Até as chuvas remetem ao inesperado, pois nem sempre é possível prevê-las.
Vale notar a ambiguidade causada pela sintaxe, que contribui para intensificar a expressividade da imagem. O sintagma “cheios de areia” inicia o verso oito, o que chama a atenção para seu significado. Ele pode ser lido tanto como adjunto de córregos como do sujeito de atravessaremos. Assim, somos capazes de imaginar os córregos cheios de areia depois de terem sido agitados, ou abertos, pelas chuvas. E também podemos visualizar pessoas, incluindo nós mesmos, cheias de areia, o que sugere não apenas um maior contato com a terra, mas a bagunça, a brincadeira de criança.
A vírgula isolando o sintagma “após as chuvas” também contribui para a ambigüidade, além de chamar a atenção para os sentidos desse adjunto. Uma vez isolado no final do período, pode modificar apenas córregos ou toda a frase. Assim, não é possível saber ao certo se a imagem apenas contribui para a criação dos córregos, que surgem como conseqüência das chuvas, ou se são elas que nos obrigarão a faltar a algum compromisso. É possível, ainda, nos imaginarmos debaixo da chuva, ou porque fomos surpreendidos por ela, ou porque decidimos brincar nela.
As chuvas, no plural, também indicam a passagem do tempo, referindo-se à sucessão contínua e regular das estações. Assim, visualizamos o homem, como um animalzinho, recolhendo-se naturalmente em sua toca para se proteger durante os dias de chuva. Essa imagem lembra-nos da regularidade presente na Natureza; regulariade esta que inclui o inesperado, tido como algo natural e necessário para preservarmos nossa integridade. Isso contrasta com a idéia do relógio de ponto, que marca o tempo de maneira mecânica e artificial.
Todas as leituras se combinam e o que permanece é a imagem de um homem em harmonia com a Natureza, reintegrado com o universo em que vive. Corroborando para a criação de uma imagem agradável, que apela às sensações, a aliteração dos sons sibilante e chiante recria o som da chuva caindo e da água corrente dos córregos. Vale mencionar, também, que o termo chuvas é usado, em algumas regiões do Brasil, para se referir a bebedeira. Embora essa leitura não seja a central, ela intensifica a imagem em contraste com o levar a sério, pois supõe a entrega às sensações, o descontrole. Cabe lembrar, também, que a pessoa séria pode ser considerada aquela que não ri, que não se diverte [4] .
Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.
O inesperado se intensifica na terceira estrofe, que amplia a imagem da anterior. O uso da conjunção se e do subjuntivo estabelece a hipótese, a incerteza, reforçada pelo acoplamento [5] de “súbita alegria” e “inesperado companheiro”. O imprevisto assume uma conotação extremamente positiva, o que novamente se opõe à idéia do relógio de ponto. O vínculo com o título se torna explícito, nesse trecho, especialmente no verso 12.
O período apresenta uma estrutura típica das construções hipotéticas, mas o futuro, marcará, contrasta com a idéia do imprevisto, uma vez que está no modo indicativo, sugerindo certeza. No entanto, isto acaba por intensificar, através da ironia, o inesperado, já que não é comum um funcionário marcar o cartão do colega de trabalho. Por isso o uso de “inesperado companheiro”. Além de inesperado, é companheiro: este termo pode remeter àquele com quem compartilhamos alguma situação e, ao mesmo tempo, a amigo.
Neste momento, vale pensar nas relações entre os homens no trabalho, que se estendem para os outros planos da vida. Nesta terceira estrofe, notamos uma crítica à competitividade que se criou nos mais diversos setores de trabalho, onde a idéia do jogo (2o. verso) tomou seu formato mais feio. A disputa e a individualidade tomaram proporções gigantescas. Há também uma crítica ao próprio trabalho. O eu-lírico chama a atenção para o fato de que a presença do trabalhador é marcada por um cartão, como se o fato de estar ou não estar lá não interessasse. O que interessa é bater o cartão, a pessoa não existe. Assim, o próprio levar a sério é visto com ironia, pois percebemos que o que importa é cumprir com as obrigações apenas aparentemente. Assinar o ponto não garante a realização do trabalho, e muito menos sua realização com empenho. A atividade, assim, não tem sentido. A crítica se estende a tudo, até ao amor. Quando há regras e imposições demais, perde o valor e as pessoas não estão mais onde aparentam estar.
É interessante notar a ambiguidade que aparece no possessivo nosso, determinando cartão: pode se referir não apenas ao cartão do eu-lírico, e conseqüentemente do leitor e de qualquer homem, mas também inclui o próprio companheiro, como se este não simplesmente prestasse um favor, mas, ao marcar o ponto, o fizesse como se fosse o seu próprio cartão, sendo este visto como algo coletivo, o que dá ênfase à idéia de cooperação, já anunciada pelo uso do termo companheiro.
A estrutura da primeira estrofe se repete na quarta, o que faz com que a imagem ganhe força e permite que o leitor reinterprete a primeira estrofe, uma vez que algumas relações de sentido já se tornaram mais explícitas.
Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.
A idéia de vitória, primeiro no sintagma “as faixas da vitória” e depois em “a própria vitória”, retoma a idéia da competitividade que surge na terceira estrofe. Com esses dois sintagmas, o eu-lírico faz uma diferença entre a aparência e a essência, chamando a atenção para o sem-sentido de várias disputas, tanto no âmbito profissional quanto em qualquer circunstância da vida. A faixa da vitória, embora seja o ícone da conquista, nem sempre significa que houve, de fato, o êxito. Isto intensifica a idéia expressa em “torna-se amargo”. O que deveria representar um sucesso pode ser apenas um símbolo vazio. De todo modo, a vitória, em si, traz contentamento e é tida como algo positivo. No entanto, ela pode se tornar amarga, quando levada a sério, ou seja, quando se torna uma simples obsessão, uma disputa doentia que afasta o homem de sua própria natureza, que está ligada à busca do crescimento, da liberdade e do prazer.
A gradação se estrutura à maneira da primeira estrofe e o envolvimento do eu-lírico é mais forte a cada item. Desta vez, o intensificador que se repete é própria(o), chamando a atenção para o significado do termo que modifica e ressaltando a indignação e a preocupação do eu diante do que expressa.
O termo em destaque agora é Céu. Em maiúsculo, pode se referir ao firmamento, em oposição a Terra (6o. verso), e ao Paraíso, lugar onde se dá o encontro com o Criador. Com isso, a significação de todo o poema se amplia. Sabemos que o levar a sério se refere à vida no geral e a um comportamento típico daqueles que, buscando o prêmio após a morte, estruturam suas vidas em um sistema rígido de leis que os impede de viver, gerando culpa atrás de culpa. Assim, a Religião e os códigos morais são tidos como o relógio de ponto, que nos oprime e nos pune a cada falta.
A idéia de amargura se intensifica, pois a própria bondade, o “amar ao próximo”, presente nas mais diversas religiões, quando vividos apenas como preceitos, tornam-se tristes e vazios. Com isso, o sentido de faltaremos como “pecaremos” ganha força no poema. O eu-lírico se revolta diante do fato de o ser humano ser capaz de passar a vida toda com medo de errar, transformando tudo em pecado, e deseja que o homem se livre da culpa e dos códigos que buscam transformá-lo em algo mecânico, incapaz de sentir qualquer coisa e de ter prazer. O relógio de ponto vai se apresentando, pouco a pouco, como metáfora de algo grotesco, que transforma a vida em uma simples contagem numérica do tempo que leva à morte.
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.
A estrutura da segunda estrofe é retomada na última. Os dois primeiros versos mantêm-se idênticos, mas, agora, com seu sentido ampliado. Os dois últimos versos apresentam uma nova metáfora, que fecha o poema deixando, para o leitor, um certo otimismo e um convite à transformação.
O verbo “levar”, presente na imagem do levar a sério, cede espaço ao lavaremos. A semelhança sonora entre levar e lavar reforça a idéia da transformação sugerida pela metáfora. Lavar as pupilas cegas com o verniz das estrelas pode assumir diversos sentidos, mas todos estão vinculados ao ampliar da visão. As pupilas são a parte do olho que permitem a passagem da luz. São elas que definem o quanto de luz deve passar à retina. A idéia de lavar relaciona-se à retirada de obstáculos, à purificação, por isso a imagem sugere a revelação, a descoberta através de um modo diferente de ver.
O eu-lírico não se refere à luz das estrelas, mas ao verniz. O verniz remete ao brilho da estrela, que pode ser relacionado à luz que possibilita a visão e o entendimento. A própria sonoridade do vocábulo intensifica o ato de ver: verniz. Mas verniz sugere outras relações de sentido: uma vez que é um produto, natural ou sintético, usado para proteger móveis e obras de arte, remete ao próprio Universo onde moramos, tido como uma obra de arte para ser admirada.
O modificador cegas pode atribuir dois sentidos diferentes a pupilas, de acordo com as funções atribuídas ao sintagma “com o verniz das estrelas”. Elas podem estar cegas, no sentido denotativo, e, “com o verniz das estrelas”, adjunto adverbial de lavaremos, serão lavadas e passarão a ver. Ou, no sentido figurativo, elas podem estar deslumbradas com a beleza das estrelas — nesse caso o sintagma preposicional liga-se a cegas, indicando a causa da cegueira. De qualquer forma, a imagem sugere uma visão que vai além do simples enxergar. O vocábulo lavar sugere, ainda, o ritual do batismo, evocando a idéia de uma nova vida. A aliteração dos sons [v], [s]e [l]colabora para a criação de uma atmosfera de calma, que envolve e conforta, ao mesmo tempo em que convida ao ritual da mudança.
Vale notar que, ao longo de todo o poema, encontramos vocábulos relacionados à Natureza: pássaros, córregos, areia, chuvas, Céu, Terra, estrelas. Com isso, o eu-lírico recria, pela palavra, o próprio Universo, ao qual busca integrar-se. Esse Universo, que se opõe ao universo artificial do relógio de ponto, apresenta uma regularidade e uma ordem própria, que se faz silenciosamente, sem agredir. O próprio poema reproduz essa ordem, não apenas pela regularidade métrica dos versos octossilábicos, mas pela simetria das estrofes. A estrutura das duas primeiras, incluindo algumas frases, se repete idêntica nas duas últimas. A única estrofe diferente está no centro, estabelecendo um equilíbrio. A própria expressão “De quando em quando”, ligada a “faltaremos a algum compromisso na Terra”, sugere uma regularidade. Assim, o eu-lírico apresenta a falta e o imprevisto como elementos constitutivos da ordem cósmica. Isto é, o que parece desordem, caos, é parte de uma estrutura maior e organizada que é o próprio Universo.
[1] Cabe lembrar que, antes disso, Alberto da Cunha Melo havia publicado Círculo cósmico (1966) e Oração pelo poema (1967) em separata da revista Estudos Universitários da UFPE.
[2] César Leal. In Quíntuplo, pp. 07-08.
[3] pp. 31-32.
[4] Cf. Aurélio eletrônico.
[5] “Acoplamento” é o termo utilizado por Samuel Levim para designar a convergência de estruturas sonoras ou semânticas na sintaxe no texto poético. Cf. Estruturas lingüísticas em poesia. Trad. J. P. Paes. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1975.
Isabel Moliterno possui graduação em Letras – Inglês/Português – pela Universidade de São Paulo (1998), mestrado (2002) e doutorado (2008) na área de Filologia e Língua Portuguesa, também pela USP. Atualmente é professora no curso de Letras do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), em São Paulo. Tem experiência no ensino e pesquisa de temas relativos às áreas de Literatura e Linguística, com especialidade em Estilística da Língua Portuguesa e Poesia Brasileira. (Fonte: Currículo Lattes)
Universidade de São Paulo (USP). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)  (Instituição-sede da última proposta de pesquisa)
País de origem: Brasil
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